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Educação e Demografia - Por: Josué Modesto dos Passos Subrinho

Por Josué Modesto dos Passos Subrinho
- 12/03/2019 12:19:00
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Josué Modesto dos Passos Subrinho, secretário de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura, inicia nesta terça-feira, 12, uma série de artigos sobre o cenário da educação pública estadual e nacional com o texto inicial “Educação e Demografia”.

 

Ex-reitor da Universidade Federal de Sergipe (2004-2012) e da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (2013-2017), Josué Modesto é graduado em Ciências Econômicas pela UFS e tem mestrado e doutorado em Ciências Econômicas pela Unicamp na área de História Econômica.

 

 

Leia o primeiro texto na íntegra

 

Educação e Demografia

 

Houve um tempo em que as chamadas estruturas eram levadas em forte consideração na análise de qualquer fenômeno social. Antes de analisar as manifestações mais superficiais de um fato, os cientistas sociais procuravam entender as determinações profundas, duradouras e estáveis que, em grande medida, determinariam os aspectos mais salientes dos eventos. A economia, as variáveis ambientais (clima, solo, hidrografia, localização geográfica etc.), a herança cultural e a demografia eram frequentemente examinadas para explicar ou pelo menos delimitar o funcionamento das forças superficiais, de caráter mutável no curto prazo.

 

Em contraste, nos dias atuais, frequentemente se desconsideram solenemente as estruturas e mesmo os fatos. Os dados mais evidentes de um fenômeno passaram a ser desprezados ou relativizados. As ideias de progresso, de sentido da história e de evidência factual foram crescentemente abandonadas em favor de abordagens alternativas, a partir de observadores ou interesses diferenciados, questionando-se a própria existência de fatos, os quais passaram a ser entendidos como construções mentais determinadas pelos valores do observador, atingindo-se o ápice com a ideia de narrativa, em substituição à História, à análise social.

 

A crítica ao uso das estruturas como explicação última dos fenômenos sociais tem um apelo legítimo na medida em que as especificidades de cada fenômeno, suas variações no tempo e no espaço tendiam a ser sufocadas pela busca dos determinantes exclusivamente nas estruturas, pela dificuldade em capturar e aceitar o inusitado, de desprezar os fatos, como se fossem meras manifestações, epifenômenos, por um certo tolhimento de explicações alternativas, ou de descartar como irrelevantes dados que não abonassem as explicações advindas dos fatores estruturais.

 

O triunfo recente das narrativas, ou seja, das explicações sem aderência a quadros mais amplos – as famosas estruturas – , da institucionalização de públicos que as legitimam, da difícil comunicação entre as narrativas alternativas, as quais passam a ser autorreferenciadas, parece estar levando as ciências sociais a um impasse que no limite questiona o próprio status de ciência que ela reivindica.

 

Mas há bons exemplos de tratamento adequado das tensões entre estruturas e fatos sociais. Max Weber, por exemplo, analisava com rigor os determinantes estruturais sem derivar automaticamente deles a cultura, a política, a religião etc. Além disso, pregava a necessidade da objetividade na análise social, sem ter a ingenuidade de se colocar como analista neutro. Admitia que o cientista social traz em si valores e ideologias fortemente influenciados por sua formação, pelo meio em que viveu, que, inevitavelmente, contamina sua visão de mundo. Não obstante, a objetividade dos dados e a isenção metodológica devem ser perseguidas, sendo um forte elemento de controle à explicitação de sua metodologia e à disponibilidade dos dados para reexame por pares e interessados. Do debate entre os cientistas sociais, a partir dos dados disponíveis e da observação da realidade, pode surgir, precariamente, o que mais se aproximaria de uma análise consistente.

 

Este longo prólogo é para anunciar ao possível leitor que passarei a analisar, em artigos curtos e destinados à divulgação para um amplo público, alguns dos principais aspectos recentes da educação sergipana, abordando principalmente suas redes de ensino, a população estudantil, os professores e outros profissionais. Tal análise é interessada principalmente na visão macro, portanto, fortemente dependente de dados estruturais, na qual os demográficos e estatísticos são de maior relevância.

 

Nossa sociedade parece ter uma impaciência com os números, uma dificuldade em aceitá-los como os melhores tradutores da realidade. Alguns dos meus alunos, na universidade, diziam que pulavam a leitura das tabelas em artigos científicos ou de divulgação; uns porque acreditavam que tudo o que elas expressavam, o autor traduziria em texto; outros por simples antipatia. É uma pena que assim procedessem, pois as tabelas expressam fatos. O autor normalmente destaca, no texto, apenas os que considera mais importantes para o seu enfoque. Quem não lê atentamente a tabela por inteiro abdica da oportunidade de ter uma visão diversa da do autor ou de perceber a possível imperícia dele no uso dos dados.

 

Espero do caro leitor uma leitura atenta dos dados que apresentarei, os quais têm servido para diagnóstico, acompanhamento e proposituras de ações de política educacional.  Esses dados têm permitindo um norteamento para o que acreditamos ser a melhor forma da administração pública – a sistemática análise de dados para embasar as prioridades, as ações e o acompanhamento da eficácia dos resultados. Sempre indicarei as fontes dos dados utilizados. Neste sentido, se possível, pediria ao leitor uma consulta às fontes citadas e a honra de ter uma crítica objetiva.