Por Michele Becker
Fonte: Ascom/ Seduc
Na entrevista da série 8 de Julho, o professor Wanderlei de Oliveira Menezes nos conta como se deu o processo de pesquisa e de edição da obra rara e bicentenária de Carlos César Francisco Burlamaque, que até sua reedição pela Editora Seduc encontrava-se distante do povo sergipano.
‘Memória histórica e documentada dos sucessos acontecidos em Sergipe d’El Rei (1821)’ é um livro histórico que tem como cenário a província de Sergipe d’El Rei, enquanto capitania recém emancipada política e administrativamente da Bahia. Nesta obra rara e bicentenária, reeditada pela Editora Seduc, em 2022, com o selo ‘Bicentenário da Independência do Brasil’, é possível encontrar o relato das vivências e dos dramas vividos pelo primeiro governador de Sergipe, Carlos César Burlamaque (1775-1844) – um militar lisboeta de descendência italiana – que descreve em primeira pessoa o seu tumultuado início de ano, em 1821. Em entrevista com o historiador e responsável pela reedição, notas e comentários acrescidos à obra de Burlamaque, Wanderlei de Oliveira Menezes, nos deparamos com detalhes interessantes, mas, até então, ignorados pelo público sobre a vida deste ‘ilustre desconhecido’. Um dos detalhes é o fato dele ter um terceiro nome de batismo, Francisco, esquecido pela história oficial. Outro diz respeito a sua primeira prisão enquanto governador da Capitania de São José do Piauí (1811), em virtude da oposição que fizera ao governo do Maranhão. E ainda temos de brinde as críticas de Burlamaque aos conteúdos publicados pelo jornal Idade D’ouro Do Brazil, também conhecido como Gazeta da Bahia, que circulou de 1811 a 1823. De acordo com o professor de História da rede pública estadual, é importante ressaltar que essa nova versão atualizada e comentada serve de referência paradidática para professores e estudantes de Sergipe que queiram aprofundar seus conhecimentos sobre a data de 8 de julho de 1820 e seus desdobramentos históricos.
Seduc – ‘Memória histórica e documentada dos sucessos acontecidos em Sergipe d’El Rei (1821)’ é uma obra escrita pelo primeiro governador de Sergipe, pós emancipação política e administrativa da Bahia. Porém, é um texto pouco conhecido pelos sergipanos. Por quê?
Prof. Wanderlei – Porque estamos falando de um livro raríssimo que só tem um exemplar conhecido e que se encontra na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. É uma obra bicentenária, de quarenta páginas, conhecida por alguns poucos historiadores que citam essa obra para mostrar qual foi a narrativa dos acontecimentos ligados à independência. Eu tive conhecimento desse livro ainda quando eu entrei na graduação em História, isso lá em 2002, aí eu fui atrás dessa obra na biblioteca da UFS, a maior biblioteca aqui do estado de Sergipe, mas não tinham nenhum exemplar. Para ter acesso a este livro eu tive que entrar em contato com um amigo lá do Rio de Janeiro. Ele solicitou uma cópia e é com ela que eu desenvolvo as minhas pesquisas, desde então.
Seduc – O livro recebeu o ‘Selo Bicentenário de Independência do Brasil’ e publicado pela Editora Seduc, em 2022. Nele encontramos notas e comentários de sua autoria. Conte-nos quais foram os desafios enfrentados para republicar essa obra tão rara e tão cara ao povo sergipano?
Prof. Wanderlei – Há doze anos eu decidi relançar este livro. Julgava ser muito importante que outros professores e estudantes tivessem acesso. Desde o início, o meu maior desafio foi realizar intervenções adequadas porque o texto tem um autor e, na qualidade de editor, eu precisava ser honesto com o autor. Eu poderia fazer uma edição fac-símile, ou seja, apenas reproduzir a obra de Burlamaque. Mas, eu não achei interessante fazê-la porque só eruditos, filólogos e historiadores profissionais teriam o conhecimento suficiente para uma leitura adequada do texto. Então, eu quis popularizar a obra de Burlamaque. O primeiro procedimento que eu fiz foi atualizar a escrita de um texto antigo e com vocabulários em latim; o segundo foi transformar as notas de rodapé do texto original em algo aprazível para os jovens de hoje. Seis anos depois de iniciar o trabalho de coleta e análise de documentos, a versão para reedição estava pronta. Mas faltavam recursos financeiros para entregar uma edição bem-acabada para o grande público. O tempo foi passando e eu até já havia esquecido do livro. Só que aí veio a pandemia e, nesse contexto, surgiu o edital da Seduc. Eu agarrei essa oportunidade porque sabia que esta seria a única forma de eu publicar uma obra que circularia nas escolas, universidades e outras instituições de pesquisa do Estado.
Seduc – Enquanto historiador, explique-nos como se deu o processo de pesquisa a partir de documentos impressos e manuscritos sobre Burlamaque encontrados em Portugal, Bahia, Piauí, Rio de Janeiro e Sergipe?
Prof. Wanderlei – Quando eu terminei de fazer o trabalho de edição da obra eu senti necessidade de algumas coisas. A exemplo de uma biografia do Burlamaque. Por quê? Porque quando eu fui pesquisar na historiografia havia pouquíssima informação sobre ele. E aí o que eu fiz? Fui pesquisar em documentações que encontrei em Portugal, no Piauí, em Sergipe, na Bahia e no Rio de Janeiro. Eu juntei todas as informações que eu tinha sobre Burlamaque e fui elaborando um esboço de biografia desse homem. E tem coisas curiosas que eu encontrei, viu? Só para trazer algumas informações: o nome completo dele é Carlos César Francisco Burlamaque. Eu descobri que ele nasceu em 1735, em Lisboa, e morreu em 1844, no Rio de Janeiro. Foi casado três vezes. Com sua prima materna Doroteia Adelaide Ernesta Pedegache da Silveira, em 1797, com quem teve três filhos. Quando sua primeira esposa faleceu, ele decidiu desposar Maria Benedita de Castelo Branco, em 1809, filha de um importante latifundiário local, mas sua segunda esposa falecera no Piauí, em 1821. Mesmo ano em que Burlamaque seria preso pela segunda vez, em Sergipe. Sua primeira experiência na prisão aconteceu em 1811, em virtude da oposição que fizera ao governo do Maranhão na época em que governava a Capitania de São José do Piauí. Já o terceiro casamento ocorreu no Rio de Janeiro, em 1824. A noiva era Joana Maria de Lima, filha do marechal-de-campo José Joaquim de Lima e Silva, comendador da Ordem de Avis. Esse casamento aos quase 50 anos Burlamaque cumpriria uma dupla função: fortalecia a possibilidade de conseguir manter postos militares em virtude do sogro na capital do império no Brasil e daria o devido amparo familiar a ele e seus filhos. Então, essas são algumas das informações obtidas por meio destes documentos. As demais, terão que ser lidas no livro.
Seduc – Em suas memórias, Burlamaque narra os turbulentos dias de seu curto governo. Quais fatos presentes nesta memória o senhor destacaria?
Prof. Wanderlei – Eu vou destacar uma sequência de fatos bem marcantes. Primeiro, no dia 25 de julho de 1820, Burlamaque foi nomeado governador. Neste período, ele estava no Piauí, casado e feliz. A esposa dele, a Maria Benedita, era uma das mulheres mais ricas e ele havia se tornado um grande proprietário de gado. Com a nomeação, ele disse que precisava de um tempo para arrumar as malas, pegou dois filhos menores para trazer à Sergipe. Burlamaque conta que no dia 3 de janeiro de 1821, estava em Salvador. Ele ficou um mês na capital da Bahia resolvendo questões burocráticas. No dia 5 de fevereiro, Burlamaque sai de Salvador para tomar posse em Sergipe. Então, acontece um fato que vai mudar a história de Sergipe e da Bahia. No dia 10 de fevereiro de 1821, os portugueses de Salvador resolveram aderir às Forças de Lisboa e com isso tentaram anular a independência de Sergipe. Como Burlamaque estava a caminho de Sergipe quando estourou a revolução, ele ficou sem saber o que estava ocorrendo. Ele demora até o dia 19 de fevereiro para chegar em São Cristóvão, capital da província de Sergipe. Quando ele chega, a revolução já havia tomado conta de Salvador. E foi dado uma ordem para não dar posse ao novo governador. Só que Burlamaque reúne a elite da época e pede o apoio deles para ser empossado. Quando ele assume o poder, em 20 de fevereiro de 1821, ele chega com desconfianças. As primeiras medidas de Burlamaque enquanto governador foram: organizar a fazenda, a cobrança de impostos e a administração. Mas, em 4 de março, Burlamaque fica sabendo que uma tropa enorme, auxiliada por quatro companhias, sendo duas Cavalarias e duas Infantarias, havia sido enviada de Salvador para depô-lo do poder. Esta tropa chega por Estância, passa por Laranjeira e quando chega em São Cristóvão, Burlamaque decide entregar o governo interinamente à Câmara. A tropa era comandada pelo Coronel Bento de França que, num primeiro momento, diz à Burlamaque que a ordem que recebera era de conduzi-lo à Bahia. Burlamaque resolve seguir a tropa e quando chega em Salvador, ele recebe a ordem de prisão e é jogado numa masmorra no Forte do Mar. Seus dois filhos também permaneceram presos por 48 horas e depois foram soltos. Após 30 dias de prisão, sem ter sido declarado culpado de nenhum ato, Burlamaque é solto. É nesse processo que ele narra tudo o que ele viveu neste período, com o objetivo de mostrar para o rei de Portugal, D. João VI, que ele era inocente e que ele foi vítima de perseguição.
Seduc – Além das memórias de Burlamaque sobre os primeiros dias de Governo em Sergipe d’El Rei, o livro também traz comentários do próprio governador a artigos do Jornal Idade d’Ouro do Brazil. Por quê?
Prof. Wanderlei – Essa parte eu acho fantástica! Seria a segunda parte da obra original, quando Burlamaque reúne as cartas que escreveu para um jornalista que trabalhava no maior jornal dessas capitanias do Norte na época. Era um jornal muito violento com Burlamaque, que escrevia impropérios e fazia ofensas pessoais, chamando-o de frouxo, de vagabundo e outras coisas mais. Burlamaque, então, resolve responder ao jornalista no mesmo tom. Na segunda parte do seu livro, portanto, ele transcreve trechos dos artigos publicados no jornal e, na sequência, apresenta a carta de resposta ao jornalista. Interessante notar que no ano de 1821 existem poucos exemplares do jornal disponíveis à consulta, sobretudo, neste período de fevereiro e maio, onde há essa troca de correspondências entre Burlamaque e o jornalista. Infelizmente, nós não temos o original para poder conferir se as informações foram passadas de forma adequada.
Seduc – Qual a importância desta reedição em termos de referência paradidática para professores e alunos de Sergipe?
Prof. Wanderlei – É uma importância enorme, pois estamos dando a possibilidade de professores, estudantes e pesquisadores de Sergipe de terem acesso ao testemunho de época, narrado na primeira pessoa. Um relato vivo de um dos mais importantes acontecimentos da história de Sergipe. Quando eu comecei a fazer a edição do livro, eu pensei: um dia essa obra vai chegar na mão de um professor, que vai levar para a sala de aula, vai debater com os alunos, vai tirar uma cópia de uma página ou outra para trazer esse debate, vai elaborar uma prova e escolher um trecho da obra para testar o conhecimento dos jovens sobre a sua própria história. Só o que eu não quero é que nenhum professor passe pelo que eu passei. Ter que ir ao Rio de Janeiro para ter acesso à nossa história. Ao contrário, meu desejo é que este livro esteja disponível para todos aqueles que tenham interesse de entender esse testemunho e de compreender esse processo por meio da ótica de Burlamaque. Para mim, enquanto professor de História, era muito triste pesquisar na internet e não encontrar nenhuma referência sobre a obra de Burlamaque. Hoje, felizmente, tanto os professores quanto os estudantes e pesquisadores podem realizar a mesma pesquisa e encontrarão um link da Editora Seduc onde o livro está disponível no formato e-book para fazer ser baixado gratuitamente, no conforto de seus lares.
Wanderlei de Oliveira Menezes é natural do povoado Açude da Macela, em Itabaiana. Se considera fruto da educação pública de Sergipe. Foi aluno no ensino fundamental e no ensino médio da rede pública estadual. Em 2002, entrou no curso História da Universidade Federal de Sergipe, onde se formou em licenciatura e bacharelado. Em 2012, tornou-se mestre em História pela Universidade Federal de Sergipe. No mesmo ano, regressou à rede pública estadual de ensino na qualidade de professor. Foi professor substituto no Departamento de História da UFS entre 2017 e 2019. Também é autor de “História da Capitania de Sergipe através de textos e documentos”, publicado pela Editora Seduc, em 2021.
Para ter acesso a versão digital e gratuita do livro, basta acessar o Acervo Digital, disponível no site da Editora Seduc ou clicar aqui
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