Oito de Julho: um farol para a Sergipanidade

Por Silvio Oliveira
Fonte: Ascom/ Seduc

 

 

Nessa segunda reportagem da série “Oito de Julho” traz curiosidade sobres os fatos e, com o objetivo de marcar a data, manifesta-se que o 8 de Julho é considerado um farol voltado para a Sergipanidade.

 

Com a Carta Régia assinada em 8 de julho de 1820 pelo então rei D. João VI, que autorizava Sergipe d’El Rey a ter seus próprios governantes, ou seja, a emancipar-se politicamente da Bahia; com a Interdependência do Brasil e o Regente D. Pedro I confirmando a carta assinada por seu pai, constituindo Sergipe como província emancipada da Bahia em 05 de dezembro de 1822; o levante popular expulsando as Juntas Portuguesas da Bahia em 2 de julho de 1823. Constata-se que a história é baseada em fatos concretos. As evidências que demonstram que algo aconteceu num determinado local e em espaço de tempo são objetos de estudos. Traça um marco temporal no espaço e constrói aportes por meio de datas. Os documentos, cartas, comunicados, registros e até símbolos e significados de um conjunto de pessoas se transfiguram em história, através de um ponto de vista. E como todo ponto de vista não é unânime, a história continua viva e atual para ser documentada.

 

É o que acontece com a data 24 de Outubro de 1820, inclusive encravada em uma das torres da fachada do Palácio Museu Olímpio Campos, em Aracaju. A data não é consenso entre os pesquisadores de Sergipe, mas uma grande corrente aponta que seria uma data de aclamação popular e de festejo da emancipação política de Sergipe. Não se tem registros concretos dos porquês desse festejo só ter acontecido três meses depois.

 

O historiador Samuel Albuquerque afirma que a Data Magna da Emancipação é o 8 de Julho de 1820. O 24 de outubro, segundo ele, é uma data de comemoração popular. “Por muito tempo difundiu-se que a notícia só chegou aqui em 24 de outubro, mas não há um único documento conhecido. É suposição. O fato é que desde 1836, portanto 16 anos depois, celebrava-se a emancipação política de Sergipe em outubro. Até os anos 80, para se ter uma ideia, as celebrações ocorreram no 24 de outubro. Mas ninguém tem uma resposta precisa sobre o caso, não há nenhum documento histórico sobre as comemorações no 24 de outubro que ateste”, explica.

 

Sabe-se que Sergipe possuia duas datas de comemoração à sua emancipação: o 8 de julho e o 24 de outubro. “O 24 de Outubro foi uma data popular escolhida pelo povo de São Cristóvão para comemorar, e assim o foi entre décadas e décadas inclusive no centenário de 1920”, engrossa a ideia de comemoração, o historiador Marcos Vinicius.

 

Segundo o pesquisador Luiz Antônio Pinto Cruz, a data 24 de outubro de 1820, ainda é alvo de muita discussão e divergências entre os historiadores sergipanos por não ter uma documentação concreta. Ele aponta datas baseadas em documentos que trazem luz para a dúvida. “Há respaldos documentais que a emancipação política de Sergipe foi comemorada em 24 de outubro de 1824, quando supostamente a notícia chegou aos sancristovenses; em 24 de outubro de 1836, devido à efervescência cívico-religiosa da comemoração popular. Esta festa foi marcada pela apresentação do Hino de Sergipe, letra de Manoel Joaquim de Oliveira Campos e música de Frei José de Santa Cecília; e 24 de outubro de 1839, quando o governo provincial decretou tal data como “feriado da Emancipação”, elenca.

 

O fato é que as duas datas permaneceram como feriado até o final da década de 1990. No final da década, a Assembleia Legislativa de Sergipe, após longas discussões com pesquisadores, votou pelo cancelamento do feriado de 24 de outubro, pois a festa popular havia deixado de acontecer. Porém, como há documentos de comemorações precisos nesta data, inclusive a comemoração do centenário da emancipação neste dia, o 24 de outubro passou a ser considerado o Dia da Sergipanidade, preservando uma antiga memória ligada à Independência de Sergipe.

 

“Nós tínhamos dois feriados. O oficial e o festivo popular. Foi quando Luiz Antônio Barreto definiu que dia 24 de outubro como o Dia da Sergipanidade”, completa o historiador Antônio Wanderley.

 

Emancipação política ou independência?

 

Mais uma pergunta que torna a história atual e moderna e que ainda não é consenso entre os pesquisadores sergipanos: emancipação ou independência de Sergipe no 8 de julho? O conceito de emancipar se mistura com tornar independente, porém, cabe aí uma elucidação de correntes históricas em torno do tema quando traz independência enquanto conceito de liberdade, autonomia, soberania, insubmissão, ausência de subordinação.

 

Os pesquisadores e autores do livro “Emancipação Política de Sergipe”, Marcos Vinícius Melo dos Anjos e Antônio Wanderley alinham a ideia de que desde a criação da Capitania de Sergipe d’El Rey, em 1590, Sergipe nunca pertenceu à Capitania da Bahia, ou seja, era uma capitania como qualquer outra, com organização de Governo, Justiça, Ouvidor… O que havia de fato era uma dependência política e, por consequência, econômica, por ser Salvador o Centro Político que nomeava os capitães-mores das capitanias: Ilhéus, Porto Seguro e Sergipe d’El Rey e Espírito Santo.

 

“Sergipe era uma capitania igual a Bahia, por isso que se chamava Sergipe d’El Rey, mas a Bahia tinha a prerrogativa de nomear os governantes sergipanos. Quando o D. João VI assina a Carta Régia diz que daquele dia em diante Sergipe receberia o governante indicado por ele e não pela Bahia. É a referida emancipação política e nãoa independência”, acrescenta o historiador, Marcos Vinícius.

 

É fato que essa dependência política, de uma capitania subalterna, ou seja, que não tinha o poder de escolher seus próprios governantes, fazia das terras sergipanas um desconcertante dependente social, financeiro, militar, político, ou seja, subalterno em vários sentidos, e quando detinha uma certa autonomia, como a econômica na produção agropecuário, por séculos teve que utilizar os portos baianos e lá deixavam os impostos.

 

Há divergências sobre o tema e não é por acaso. De acordo com a pesquisadora e historiadora Edna Maria Matos Antonio, Sergipe d’El Rey por ser uma capitania subalterna à Bahia, tinha vínculos e dependências de muitas naturezas.

 

“A capitania da Bahia sempre foi muito poderosa, porque a elite e as relações econômicas e políticas eram importantes e tinham muito peso no império português inteiro, relacionados a tráfico de escravos, relacionados ao comércio da cana de açúcar, Sergipe participava disso, mas como território anexo. Sergipe sempre foi visto como um território preferencial para que quando precisasse de algo estava ali para servir, um território no qual estava ali, seja para a comida, seja para recrutar homens para compor o exército”, explica a pesquisadora, Edna Maria Matos.

 

Emancipado ou/e independente, o professor Luiz Antônio Pinto Cruz aponta que um dos principais legados deixados pelo 8 de julho são os primeiros acordes de uma sergipanidade. “O legado marcante sobre a independência de Sergipe é a formação efetiva da sergipanidade, de uma gente singular e riqueza cultural, que não se via mais como baiana”, afirma.

 

A Sergipanidade

 

O pesquisador Antônio Wandeley destaca a ideia de sergipanidade como derivante das palavras brasilidade, “nordestinidade”. Ele ressalta que sergipanidade pode ser considerada um conjunto de ações, que vão desde sentimentos, pertencimento, simbologias, obras, até escritos e saberes.

 

“A sociedade sergipana passou a ter interesses próprios, isso foi forjando uma identidade e a ideia de sergipanidade.  É uma palavra nova e nesse bojo Luiz Antônio Barreto criou essa ideia, ou seja, o sentimento, o amor, as simbologias, o ambiente em si e sentimento próprio de ser sergipano”, destaca.

 

Ele conta que um exemplo de sergipanidade foram as comemorações dos Centenário da Emancipação (1920), quando no governo de José Joaquim Pereira Lobo, foi feito uma grande comemoração com feiras, danças, lançamento de impressos sobre o tema e publicação do Álbum de Sergipe, reeditado em 2020. Há documentos que contam que houve bailes no Salão Nobre do Palácio Olímpio Campos, lançamento da pedra fundamental da construção de um teatro, uma semana inteira de festas, além da entrega de intervenções realizadas pela Missão Italiana que esteve em Aracaju, para modernizar Aracaju, fato estes que lançaram um sentimento de orgulho sobre o que é ser sergipano.

 

A pesquisadora Edna Maria Matos ressalta essa questão como muito importante e ainda pouco difundida, quando se fala no legado do 8 de Julho para os sergipanos, principalmente no conceito de sergipanidade. “Ela é tão importante. Ainda acho que falta uma melhor atenção para essa questão. Deveríamos ter um palácio com o nome 8 de julho ou qualquer outra referência, uma praça, um conjunto de monumentos que fizesse referência a esse processo de luta. O que temos é tão pouco”, avalia.

 

O professor e historiador Luiz Antônio Pinto Cruz acredita que a sergipanidade tem que fazer uma conexão entre o presente e o passado. Ele citou como exemplo a musicalidade da banda sergipana The Baggios, que traz uma pesquisa histórica de ritmos com a atualidade. “A experiência histórica tem que servir para modernizar a ampliar o sentimento de todos”, destaca.

 

O secretário de Estado da Educação e da Cultura, Zezinho Sobral, ressalta a sergipanidade como um sentimento e um orgulho de ser sergipano, de pertencer ao território onde sua população se sente acolhida através do dia a dia e dos hábitos. “É aqui onde escolhemos morar, ter nossa família, trabalhar e nós como gestores pertencemos a esse grupo de pessoas com mais um sentimento: o dever de levar ao nosso povo melhorias para que cada vez mais nos sintamos sergipanos”, destaca.

 

Enquanto educadora e formadora, a professora do Colégio Estadual John Kennedy, Armênia Chritina Ribeiro Fernandes, disse que há uma proposta de sergipanidade a ser trabalhada na escola pública. “Temos um currículo implantado e em determinadas épocas a escola pública apresenta a história de Sergipe, a cultura de Sergipe, para que os alunos se sintam pertencentes. A gente é um estado pequeno dentro de uma nação tão grande e todos precisam conhecer”, destaca.

 

O fato concreto é que o 8 de julho faz 203 anos de história descoberta e a pesquisar. Quem sabe um dia tem-se em Sergipe uma avenida 8 de julho, ou até mesmo Aeroporto Internacional de Aracaju 8 de Julho, ou praça governador Carlos Cesar Francisco Burlamaque? É trazer um fato histórico de outrora a ser conhecido e lembrado com um bom tom de sergipanidade.

 

Colaboração:

 

Antônio Wanderley de Melo Corrêa –  Historiador, pesquisador, professor aposentado da rede pública estadual e professor da rede pública municipal de Aracaju, autor de oito livros.

Amâncio Cardoso dos Santos Neto – Mestre em História Social, professor efetivo do Instituto Federal de Sergipe, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Edna Maria Matos Antonio – Doutora em História, autora do livro “A independência do solo que habitamos: poder, autonomia e cultura política na construção do império brasileiro – Sergipe (1750-1831)”.

Eden Filipe Santos Vieira – Graduado em História, mestrando em História, técnico do Arquivo Público de Sergipe.

Luiz Antônio Pinto Cruz – Doutor em História, professor da rede estadual de ensino do Colégio Estadual Prof. Antônio Fontes Freitas, consultor de História de Sergipe do Programa Pré-Universitário da Seduc.

Marcos Vinícius Melo dos Anjos – Historiador, professor da Rede Estadual de Ensino, especialização em Formação de Professores do Ensino Superior, autor de oito livros, tal qual “Emancipação Política de Sergipe”, “História de Aracaju para Crianças", junto com o professor Antônio Wanderley.

Sayonara Rodrigues do Nascimento Santana – Historiadora, diretora do Arquivo Público de Sergipe, professora da Rede Pública Estadual de Ensino de Sergipe

Samuel Albuquerque – Escritor, Historiador, professor da UFS e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

 

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