Opinião – O Ideb: Uma visão panorâmica

Por Josué Modesto dos Passos Subrinho
Fonte: Ascom/ Seduc

 

*Josué Modesto dos Passos Subrinho

 

Em artigo anterior tratamos da controvérsia acerca do significado do IDEB aferido em 2021. Se no universo dos mais diretamente envolvidos com a educação há diversas ponderações sobre o alcance do índice obtido na situação excepcional sob os efeitos da pandemia da Covid-19, no ambiente político a proximidade de uma importante eleição contaminou os pronunciamentos dos agentes políticos. Os resultados obtidos pelas redes públicas sergipanas e, mais especificamente, pela rede estadual, foram extremamente positivos, suscitando no campo oposicionista ao atual governo desde a desconfiança quanto à fidedignidade dos dados até as tentativas de desqualificação dos resultados, passando pela exploração de episódios lamentáveis, mas sem relação direta com os esforços de qualificação da educação pública sergipana.

 

A medição do IDEB começou em 2005 e tem sido realizada a cada dois anos, com resultados apresentados para três etapas da educação básica: Anos Iniciais do Ensino Fundamental, Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Tradicionalmente se apresentam os resultados pela vinculação administrativa das redes de escolas (federal, estaduais e municipais) e escolas privadas. Os dados também são apresentados com diversos níveis espaciais de agregação (escola, município, estado e país). No quadro adiante, para simplificação da leitura, expomos os dados da rede estadual sergipana e do conjunto das redes estaduais brasileiras. Exibimos os dados da primeira avaliação (2005), a de 2015 e das três últimas avaliações, que propiciam uma visão mais ampla da evolução do IDEB da rede estadual sergipana e do conjunto das redes estaduais brasileiras.

 

Quadro 1. IDEB. Redes Estaduais

 

Ano

Anos Iniciais do Ensino Fundamental

Anos Finais do Ensino Fundamental

Ensino Médio

Brasil

Sergipe

Brasil

Sergipe

Brasil

Sergipe

2005

3,9

3,0

3,3

2,9

3,0

2,8

2015

5,8

4,3

4,2

2,9

3,5

2,6

2017

6,0

4,7

4,5

3,5

3,5

3,1

2019

6,1

5,0

4,7

3,6

3,9

3,3

2021

5,9

5,2

5,0

4,5

3,9

3,9

 

O leitor pode ver que em 2005 o IDEB da rede estadual sergipana era menor do que a média dos índices aferidos no conjunto das redes estaduais do Brasil em todas as etapas da educação básica avaliada, sendo o Ensino Médio o que mais se aproximava da média brasileira (93%) e a que mais se distanciava era a dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental (77%). Entre 2005 e 2015 o Ensino Médio sergipano apresentou uma redução no IDEB, comportamento destoante das demais etapas que apresentam crescimento nos índices, tanto no Brasil quanto em Sergipe. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental o IDEB sergipano cresceu 43,3%, entre 2005 e 2015, enquanto a média brasileira das redes estaduais apresentou um crescimento de 48,7%. Quanto aos Anos Finais do Ensino Fundamental, no mesmo período, o IDEB sergipano permaneceu no mesmo patamar e a média brasileira teve um crescimento de 27,3%.

 

Resumidamente, em dez anos, enquanto a média das redes estaduais brasileiras apresentava incrementos no IDEB e alguns estados apresentavam comportamentos consistentemente melhores, em Sergipe tivemos retrocesso, estagnação ou crescimento abaixo da média brasileira. Como partíramos de índices inferiores à média nacional, compreende-se a generalização do pessimismo entre os educadores, transbordando para a opinião pública acerca do desempenho da educação sergipana. O senso comum cunhou uma fórmula frequentemente utilizada politicamente: Sergipe tem a pior educação pública do Brasil.

 

Não obstante o desempenho de nossos índices oficiais aparentassem dar algum respaldo àquela afirmação, a partir de 2017 Sergipe passou a ter um desempenho radicalmente distinto. Entre 2017 e 2021, conforme o leitor pode ver no Quadro 1, em todos os anos em que foram realizadas avaliações e em todas as etapas avaliadas, houve uma sequência de crescimento. Mais importante, em todo o período o percentual de crescimento em Sergipe foi superior à média brasileira. Desta forma, enquanto o IDEB dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental para o Brasil decresceu 1,7%, em Sergipe o mesmo índice evoluiu em 10,6%. Para os Anos Finais do Ensino Fundamental o crescimento no Brasil foi de 11,1% enquanto em Sergipe foi de 28,6%. Finalmente, quanto ao Ensino Médio, no mesmo período, o índice brasileiro cresceu 11,4%; e o sergipano, 25,9%, alcançando a média nacional. Tais percentuais de crescimento sistemáticos e acima da média brasileira levaram inevitavelmente a uma melhoria na posição de Sergipe no ranking dos estados nas etapas da educação básica avaliadas.

 

Concluindo, os que querem transmitir a imagem da educação básica pública sergipana como uma das piores do Brasil e condenada a situações caóticas e de baixa qualificação, ou estão muito defasados em suas informações, não procurando acessar fontes oficiais facilmente disponíveis, ou portam uma má fé, ou descompromisso na defesa da escola pública. Não apenas temos trilhado uma trajetória de melhorias incrementais, como é mais frequente nos sistemas educacionais, como o conjunto de reformas educacionais implementado a partir de 2018 tem um potencial capaz de dar novos impulsos à melhoria da educação sergipana, desde que a estratégia e trajetória sejam mantidas.  No próximo artigo trataremos das reformas e estratégias educacionais que têm permitido a construção de sistemas públicos com qualidade e equidade na educação básica, no Brasil e no mundo e como elas foram aplicadas em Sergipe.

 

[*] É secretário de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura – Seduc -, e foi reitor da Universidade Federal de Sergipe e da Universidade Federal da Integração Latino-Americana no Paraná.

 

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