Por Michele Becker
Fonte: Ascom/ Seduc
A terceira reportagem da Série Vozes Estudantis reforça a importância da diversidade na educação sergipana – um conceito que propõe a inclusão de todos os indivíduos e o respeito às suas diferenças – e, no Dia Internacional dos Povos Indígenas, apresenta o exemplo de sucesso de uma educação diferenciada, protagonizada pela Escola Indígena Estadual Dom José Brandão de Castro, na Aldeia Indígena Xokó, localizada na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha
Em Sergipe, a diversidade cultural no ambiente educacional é levada a sério. Desde o início da década de 1990, a Secretaria de Estado da Educação e da Cultura (Seduc) vem trabalhando em conjunto com o povo Xokó, única etnia indígena com território demarcado no estado, para garantir uma educação escolar indígena de qualidade para crianças e jovens. Essa parceria tem dado tão certo que a Escola Indígena Estadual Dom José Brandão de Castro, na Aldeia Indígena Xokó, em Porto da Folha, no alto sertão, vem se destacando ano após ano na formação de seus alunos.
O jovem Xokó Guilherme Almeida Lima, de 16 anos, é um exemplo de excelente atuação acadêmica. Atualmente cursando a 2ª série do ensino médio, Guilherme é monitor de desempenho escolar desde 2022, e afirma se sentir satisfeito com sua função. “A monitoria tem me ensinado a liderar, a desenvolver minhas habilidades de comunicação e de organização, mas também me possibilita ajudar meus colegas de classe de maneira acadêmica. Quando eles sentem alguma dificuldade, buscam a minha ajuda, porque sabem que em nossa escola, assim como em nossa comunidade, a aprendizagem se dá de forma colaborativa”, pontua.
Como na cultura indígena a tradição é narrada por meio da oralidade, em sua memória, Guilherme tem marcadas as histórias contadas pelos mais velhos. “Os adultos sempre comentam que antigamente, no início da luta pela retomada de nossas terras, não havia escola na Ilha de São Pedro. Então, tinha uma professora que vinha para cá e dava aula no pé de uma árvore, em frente à igreja. Hoje temos uma escola bem equipada, com laboratório de informática, biblioteca, quadra coberta e uma merenda farta, mas nem por isso deixamos de valorizar a sabedoria do nosso povo. Nos projetos da escola, os professores sempre buscam interagir com os mais velhos, e esse diálogo tem surtido bons resultados”, elucida o estudante, e complementa: “Eu acredito que é por meio da educação que aprendemos a valorizar a nossa cultura indígena e a promover uma vida melhor para nós mesmos”.
Na avaliação da diretora Ângela Apolônio, indígena Xokó escolhida pelo conselho do seu povo para dirigir a unidade escolar, a escola é um dos espaços por meio do qual a comunidade Xokó pode valorizar e fortalecer a sua identidade étnica. “Por isso, o conhecimento oferecido na nossa escola deve ser intercultural, o nosso currículo precisa contemplar os saberes universais, construídos coletivamente pela sociedade, os saberes de outros povos e os saberes próprios do povo Xokó, essenciais para manter viva esta nação”, enfatiza a gestora.
Diversidade no currículo sergipano
A diversidade se relaciona com a ideia de cultura, envolvendo diversas configurações sociais. Isso porque cada cultura tem suas próprias características, manifestadas por meio de tradições, crenças, valores, expressões artísticas e comportamentais. Há uma enorme variedade cultural na sociedade, e a escola tem o importante papel de formar indivíduos conscientes dessas diferenças e prontos para atuar no combate aos preconceitos.
Dentre os oito princípios norteadores do Currículo de Sergipe, a importância de se trabalhar a diversidade é apresentada de forma explícita a partir do princípio da inclusão. Nesse sentido, ressalta-se que o currículo deve garantir a igualdade de oportunidades e a valorização das diferenças humanas, contemplando, assim, as diversidades étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais e de gênero dos seres humanos.
No ano de 2023, a Coordenação de Educação do Campo e Diversidade (Cecad) já executou ações que reforçam o compromisso do Governo do Estado com a equidade na garantia de igualdade de oportunidades, como a formação inicial das equipes pedagógicas do Departamento de Educação (DED/Seduc) para inclusão de ações voltadas à equidade em todos os seus planos de ação; acompanhamento pedagógico com visitas presenciais às escolas do campo, indígenas e quilombolas, além das reuniões pedagógicas realizadas por meio das plataformas virtuais; e o intercâmbio cultural no território indígena Xokó com estudantes da rede estadual.
Além dessas ações, a Cecad também conta com ações em andamento, tais como a parceria com o Ministério Público e Secretaria Municipal de Educação de Aracaju para realização do Ilé-Iwé, um projeto de formação continuada em Educação das Relações Étnico-raciais voltado para professores; realização da oficina ‘identidade, saberes e aprendizagens’ para professores e gestores das escolas do campo e quilombolas, com objetivo de propor ações pedagógicas que atendam a diversidade dessas escolas; roda de conversa com estudantes e comunidade escolar sobre a importância da construção de identidade racial para o enfrentamento do racismo, bem como os tipos de violência que ele provoca; diálogos sobre o racismo ambiental com as escolas da rede estadual, dentre outras.
Nesse contexto, ao desenvolver ações pautadas na educação do campo e diversidade, o trabalho desenvolvido pelo Cecad apoia-se no Currículo de Sergipe e objetiva fortalecer a formação do cidadão comprometido eticamente com o exercício crítico e responsável da cidadania, defesa da diversidade étnica e cultural brasileiras, com o patrimônio sócio-histórico e ambiental do estado e do país, com a democracia e com um desenvolvimento social, inclusivo e sustentável.
Para o secretário da Educação e da Cultura, Zezinho Sobral, defender a diversidade também é um princípio ético. “A liberdade e o direito de ser e existir à sua maneira, considerando todos os grupos de pessoas, sobretudo as minorias, é um dos preceitos básicos dos direitos humanos. Ou seja, o respeito à diversidade é um princípio fundamental para uma sociedade mais acolhedora e que busca alcançar a igualdade e a justiça social”, defende o gestor.
Principais diretrizes nacionais e internacionais
Além de sua importância social, o debate sobre diversidade também é uma temática prevista nas principais diretrizes educacionais nacionais e internacionais da atualidade.
A diversidade nas escolas é uma das competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que diz o seguinte: “Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza”.
O Plano Nacional de Educação (PNE) também enfatiza a importância da diversidade nas escolas e do fim da discriminação. Com isso, o PNE tem como objetivo combater a evasão escolar atrelada ao preconceito e garantir o acesso de todos à educação.
No âmbito internacional, a diversidade também está presente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), tanto com relação à igualdade de gênero quanto à redução da desigualdade no mundo. O ODS 4, que trata da educação, tem como uma das metas eliminar até 2023 as disparidades de gênero e garantir a igualdade de acesso a todos os níveis de educação, incluindo pessoas com deficiência, povos indígenas e crianças em situação de vulnerabilidade. Ou seja, é essencial que a diversidade seja colocada em discussão nas escolas. Mas por onde começar esse trabalho?
Como trabalhar a diversidade em sala de aula
Uma das principais dúvidas dos educadores é sobre como desenvolver atividades que trabalhem a diversidade em sala de aula. Algumas propostas são:
Incentivar a autoestima dos alunos – Entre os alunos, é possível identificar muitas diferenças, desde crenças até cores de pele. Valorizar essa diversidade em sala de aula é fundamental para trabalhar a autoestima dos estudantes. A partir da representatividade, utilizando imagens, histórias e situações em que eles se vejam representados, é possível incentivar a autoestima e o respeito à diversidade.
Explorar o assunto por meio de filmes e literatura infantil – Existem diversos filmes e livros que abordam a temática da diversidade. Exibir e propor a leitura de alguns deles pode ser um ótimo estímulo para começar essa discussão com sua turma.
Promover rodas de conversa e dinâmicas – Outra possibilidade é organizar dinâmicas e rodas de conversa para promover a integração e o desenvolvimento de valores. Pode ser um momento para tirar dúvidas e elucidar conceitos que podem ser confusos para os alunos.
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