"O sucesso de um aluno xokó é o meu sucesso", diz professora de comunidade indígena

Por Ítalo Marcos
Fonte: ASCOM / SEED


No próximo dia 15, comemora-se o Dia do Professor. Para homenagear os docentes que fazem a rede estadual de ensino, vamos contar a história de alguns desses profissionais. Conheça a história de Nadja Nária Alves da Silva Rodrigues, diretora da Escola Estadual Indígena Dom José Brandão de Castro


Prestes a se aposentar, a diretora Nadja Nária Alves da Silva Rodrigues ainda não se preparou para se despedir dos alunos da Escola Estadual Indígena Dom José Brandão de Castro – na Ilha de São Pedro, município de Porto da Folha, e tampouco os estudantes, professores e a comunidade estão prontos para despedir-se de quem estruturou o ensino e promoveu o acesso à educação de uma parcela muitas vezes esquecida da sociedade.

 

"Ela é uma gestora humana, dinâmica, participativa nos trabalhos com a escola, querida pela comunidade e professores", avaliou a colega de trabalho, Valéria das Neves Santana.

 

Joseane Apolônio, uma das primeiras alunas de Nadja, falou sobre a mestre com grande carinho. "Essa escola representa tudo para a nossa comunidade e a professora Nadja está presente em todas as boas lembranças que tenho do meu período aqui. Sentiremos saudade dela".

 

"Assinei minha aposentadoria, estou esperando apenas a portaria. Mas já estou de coração partido. Ainda não me preparei psicologicamente para deixar essa escola. São 22 anos de dedicação. Está vendo esses meninos aí? Todos nasceram depois que cheguei aqui. Conheço seus nomes, seus rostos, seus pais. Eles são minha família", revelou a diretora.

 

Antes da chegada de Nadja à Ilha de São Pedro, em 1994, nunca um ano letivo tinha chegado ao fim. Hoje, a gestora se orgulha de ter contribuído para a formação de nível superior de 18 indígenas.

 

"Desde que eu cheguei, nós sempre completamos o ano letivo. Este é o meu maior incentivo para seguir e também formar meus meninos. Na formatura, eu choro o evento todo. Ver meus alunos saindo dessa escola, sabendo que eles farão cursos técnicos, que entrarão na faculdade é muita satisfação. Para mim, o sucesso de um aluno xokó é o meu sucesso", exaltou.

 

A professora explicou que, embora a grade curricular da escola indígena seja a mesma das demais instituições de ensino da rede estadual, ainda assim a cultura local é passada às novas gerações. "Não temos nenhuma disciplina de cultura indígena. Nós a trabalhamos nas matérias do dia a dia e através de projetos didáticos".

 

Dentre os projetos didáticos da escola, destacam-se o "Mais educação" – que contempla oficinais de artesanato, a horta, aulas de reforço e lazer – e o "Valorizando as raízes xokós", trabalho que atua no resgate ao conhecimento de plantas medicinais e confecção de produtos como sabonetes, shampoos e lambedores.

 

A presença da comunidade na gestão da escola é visível, da arborização, oficinas de artesanato, participação dos pais à tomada de decisões. Tudo passa pela comunidade, é o que evidenciou Nadja. "Gerir essa escola é como gerir uma família. Aqui tudo é pensado para o bem da comunidade. Eu, como diretora da escola, tenho os meus gestores: a Secretaria de Educação e o cacique Bá. Só posso aprovar projetos depois de falar com as lideranças. Todo mundo aqui tem voz", garantiu.

 

A ascendência indígena (a mãe dela nasceu e foi criada nas Terras Belém, que faz parte do território indígena no Alto Sertão Sergipano) foi um dos fatores que levaram Nadja à Ilha de São Pedro e que a impulsionaram a abraçar fervorosamente a missão de transformar a escola em uma referência da cultura xokó.

 

"Eu trabalhava em uma telefônica em Pão de Açúcar [Alagoas], quando, em 1988, fiz concurso público para professora em Sergipe. O cacique Apolônio me procurou para vir para cá. Foi na mesma época que eles estavam fazendo retomada das terras, mas não tiveram força de me trazer logo. Passei seis anos em Monte Alegre até o cacique conseguir minha transferência para cá.

 

Desse dia em diante, a escola e a Ilha de São Pedro se tornaram minha segunda casa. No meu primeiro ano aqui, de 1994 a 1995, fiquei entre Aracaju e Brasília pleiteando recursos para a escola. A gente não tinha uma cadeira sequer. Tudo aqui é nosso. Este é o ponto de referência da comunidade xokó e a escola trabalha em parceria com o povo", disse.

 

Com apenas um dos rins funcionando, Nadja creditou a sua recuperação ao carinho da comunidade. "Eu passei um tempo doente, tive um problema renal complicado e tive que fazer cirurgia. O próprio médico me disse que não tinha mais jeito. Fiz a cirurgia e eles choraram por mim. Toda a comunidade participou do ritual, das crianças aos mais velhos, para pedir a Urubá para me curar e eu me curei", disse serenamente.

 

Ao ser questionada se alguma vez se arrependeu da dedicação ao magistério, a professora negou veementemente. "Desde criança sonhava em ser professora. Foi uma escolha de alma. Muitas vezes, o sistema de ensino me frustrou, quis ir além. Mas nunca fui pessimista. Eu creio em Deus que as coisas darão certo e quando não dão, busco alternativas", finalizou.

 

Hoje, a Escola Estadual Indígena Dom José Brandão de Castro atende a 69 alunos entre seis e 20 anos, todos da comunidade, e conta com 12 professores, sendo quatro deles índios.

 

Por Mirella Mattos, repórter da ASN

 

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