Rede pública estadual de educação assegura inclusão e atendimento especializado a estudantes com Síndrome de Down

Com salas de recursos, profissionais capacitados e projetos pedagógicos específicos, cerca de 130 alunos atualmente são acompanhados em Sergipe

Autora: Alice Mendonça (estagiária)

O Dia Mundial da Síndrome de Down é celebrado neste sábado, 21, e a Rede Pública Estadual de Educação acolhe todos os alunos com essa condição. São crianças e jovens de várias origens e características únicas, atendidas nas escolas da rede com infraestrutura adequada e professores capacitados para o suporte a todas as necessidades desses alunos. A data é comemorada mundialmente desde 2012, por definição da Organização das Nações Unidas (ONU). O tema para este ano é ‘Juntos contra a solidão’.

Em Sergipe, a Rede Pública Estadual de Educação tem 126 estudantes matriculados com essa síndrome. Para atendê-las, estão disponibilizadas 131 salas de recursos multifuncionais espalhadas nas escolas da rede, além de 850 profissionais capacitados para o acompanhamento dessas crianças e jovens, que incluem, para além da Síndrome de Down, outras condições, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a paralisia cerebral.

A diretora do Serviço de Educação Inclusiva, vinculado ao Departamento de Educação (Seinc/DED), Lilian Alves, explica que a proposta da educação inclusiva, ofertada pela rede, é a de inclusão desses estudantes nas escolas com todos os outros alunos. “Os estudantes da educação especial devem ser inclusos em escolas com os demais estudantes que não têm nenhum tipo de deficiência ou transtorno. A ideia é que todos estejam estudando juntos na mesma escola, no mesmo espaço, para que a gente tenha uma sociedade cada vez mais diversa, em que, desde o ambiente escolar, todos aprendam a respeitar e a conviver uns aos outros”, afirma.

A diretora também explica que os estudantes com a Síndrome de Down têm uma educação complementar ao currículo escolar. “A permanência desses estudantes acontece de forma que eles ingressam no ambiente escolar, mas que também eles tenham a oportunidade de desenvolvimento educacional”, completa, reforçando que a educação é um apoio importante para o desenvolvimento dos estudantes com Síndrome de Down e com outras deficiências ou transtornos.

Centro de Atendimento Educacional Especializado João Cardoso Nascimento Junior 

Na capital do Estado (Diretoria Regional de Aracaju – DEA) existe uma escola da Rede Pública Estadual voltada, exclusivamente, para a educação especializada. É o Centro de Atendimento Educacional Especializado João Cardoso Nascimento Junior, localizado no bairro Grageru.

A escola atende a 112 alunos de condições variadas, com 31 classes especiais. São 42 professores, entre pedagogos e docentes de Educação Física e 17 profissionais de Apoio Escolar I, que dão o suporte às necessidades básicas para estudantes com atividades cognitivas limitadas (como a ajuda a higiene pessoal e à alimentação). Além disso, são ofertadas sala de recurso e sala adaptada de Educação Física. São realizadas atividades como o Projeto de Comunicação Aumentativa Alternativa e o Projeto de Tecnologia de impressão 3D para educação acessível. Em breve, será aplicado o Projeto Atividades Assistidas por Animais, com o auxílio de um cachorro treinado para o cuidado com as crianças.

Na unidade, existem quatro alunos com Síndrome de Down. O diretor, Cledson Inácio, explica que a escola busca cuidar dos estudantes de forma a melhorar sua autonomia. “É um trabalho em conjunto, dentro de um currículo específico nosso, que é um currículo funcional natural. Ele trabalha com todas essas nuances para que o aluno com deficiência consiga se desenvolver de maneira motora. E o nosso objetivo é que esse aluno consiga se desenvolver dentro de uma condição de equidade e cidadania”, diz.

A professora Glícia Angélica Sales é uma das docentes dessa escola. Ela ajuda a cuidar dos alunos, como o Gabriel Ribeiro e a Letícia Souza, que têm Síndrome de Down. “Aqui no ‘João Cardoso’ a gente foca em trabalhar habilidades cognitivas, mas, mais que isso, a gente se preocupa muito com habilidades sociais. Eles precisam aprender ritmo de brincadeira, entender a deixa do outro. Essas questões de comportamentos e habilidades sociais são muito importantes para ele”, afirma.

Ela reforça que existem espectros distintos para pessoas com a síndrome, podendo ser de graus mais leves para graus mais intensos. A depender, o estudante pode ser bem desenvolvido e acompanhar o ritmo de estudos e de atividades diárias, com poucas limitações, ou ter uma boa leitura de mundo (compreender o que acontece ao redor) com habilidades motoras limitadas. No caso do ‘João Cardoso’, os estudantes com Síndrome de Down necessitam de mais cuidados, pelo fato de o grau do espectro ser mais avançado. Apesar disso, o carinho e a atenção por eles e por todos da escola prevalecem como pontes para uma vida saudável e com amor.

Escola como ponte para a autonomia

Aqueles que têm um grau de espectro mais leve têm boas capacidades motoras e intelectuais, realizando as suas atividades cotidianas com autonomia, superando muitos preconceitos existentes na sociedade sobre as pessoas com Síndrome de Down.

Um exemplo de autonomia e de superação é o de Carlos Henrique, jovem de 22 anos, egresso da Rede Pública Estadual de Educação. O jovem completou o Ensino Médio em 2025, no Colégio Estadual João XXIII, de Ribeirópolis (Diretoria Regional de Educação 3), no agreste sergipano. Ainda quando estudante, em 2022, ele lançou o livro ‘Eu tenho dificuldades, mas eu aprendo!’, com o selo da Editora Seduc. Em 2026, Carlos Henrique ingressou no curso de Jornalismo em uma faculdade de Educação a Distância (EaD) e foi diplomado na Acadêmica Sergipana de Letras PcD.

“Gostei do Ensino Médio. Foi um pouquinho difícil de aprender pelas minhas dificuldades, mas as aulas eram boas e bem explicativas. Fiz muitas atividades e provas, vi bastante conteúdo e participei de gincanas e desfiles cívicos também. Precisei de muito apoio e, na escola, recebi bastante ajuda dos professores. Isso me motivou a aprender, tirar as minhas dúvidas. Eles me elogiavam e era o melhor aluno da classe, comportado e com notas boas. Estou levando a minha vida por causa do apoio do ‘João XXIII’”, afirma, com satisfação e felicidade, o jovem.

A síndrome

A Síndrome de Down é uma condição genética que afeta, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um a cada 1000 nascimentos em todo o mundo. O ser humano têm,  como padrão, 46 cromossomos em 23 pares em suas células somáticas. Para aqueles que têm esta síndrome, há uma alteração no par do cromossomo 21, tendo três deles, em vez de dois. Com isso, há uma trissomia do cromossomo 21, que dá origem à síndrome.

Aqueles que têm essa síndrome podem ter um espectro variado, podendo ser de um grau mais leve para outro mais limitante, comprometendo a capacidade cognitiva. Devido ao capacitismo (preconceito dado a Pessoas com Deficiência – PcD), a sociedade acreditava, por muito tempo, que indivíduos com a Síndrome de Down teriam a sua vida limitada e sem autonomia. Hoje se sabe que existem diversos graus desse espectro, e que o cuidado, a atenção, o carinho e o amor ajudam na melhoria da qualidade de vida e na autonomia dessas pessoas. 

Fotos: Maria Odília

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