Colégio Estadual Tobias Barreto comemora 50 anos de transformação por meio da educação

Data foi celebrada por toda a escola no Teatro Tobias Barreto, em Aracaju. Instituição tem ao todo mais de um século de história transformando vidas

Autora: Alice Mendonça (estagiária)

A Rede Pública Estadual de Educação coleciona histórias de transformação da sociedade sergipana. Entre as 319 escolas que compõem a rede, há aquelas mais veteranas, com décadas de trajetória. Desde 1976, o Colégio Estadual Tobias Barreto integra a Rede Pública Estadual de Ensino e está localizado na Rua Pacatuba, no Centro de Aracaju. Contudo, sua história é ainda mais antiga: remonta a 1909, quando foi inaugurado na cidade de Estância, sua primeira casa. Naquele ano, era chamado de Collegio Tobias Barretto.

A escola era um internato de caráter privado, sob os cuidados de seu fundador, o professor José de Alencar Cardoso, conhecido como professor Zezinho. Na época, os internatos eram uma tendência nacional, baseados no modelo de educação religiosa dos seminários da Igreja Católica. A fundação homenageava o poeta e intelectual Tobias Barreto, nascido em 1839 na então Vila de Campos do Rio Real, atual município de Tobias Barreto, localizado no Centro-Sul sergipano (DRE 2).

Naquele período, os internatos eram instalados nas capitais e em cidades mais populosas. Em Sergipe, não foi diferente. O Colégio Tobias Barreto era particular, e muitos colégios particulares da época também funcionavam como internatos. Em 1912, encerrou suas atividades em Estância e mudou de endereço, estabelecendo-se, em 1913, na capital, Aracaju. Inicialmente, a escola era destinada ao público masculino.

Um ponto curioso dessa unidade escolar é que ela abrigou a militarização então adotada, funcionando como ‘o 1º Tiro de Guerra do Estado, que depois se transformou na Escola de Instrução Militar’, de acordo com o livro História da Educação em Sergipe (1984), da professora e historiadora sergipana Maria Thetis Nunes. Outros documentos também reafirmam que a escola mantinha formação militar, com a presença de instrutores oficiais do Exército Brasileiro.

Com o tempo, a unidade de ensino passou a atender também o público feminino. Após a transferência para Aracaju, o colégio ocupou imóveis antigos e alugados, como casas e sobrados. A partir da década de 1930, estabeleceu-se em imóveis localizados nas ruas Pacatuba e Estância. O número de alunos aumentou gradativamente e, na década de 1940, a instituição já ocupava duas casas principais, vizinhas, e outras quatro distribuídas pela Rua Estância. Ao todo, eram seis prédios utilizados pelo Colégio Tobias Barreto.

Em 1942, o Colégio Tobias Barreto foi incorporado à Cooperativa de Assistência Financeira do Ensino e Cultura da Mocidade de Sergipe. As atividades desenvolvidas na escola eram variadas, com destaque para a atuação de professores reconhecidos na sociedade sergipana, como Abdias Bezerra, Artur Fortes e Acrísio Cruz. Todos esses educadores e intelectuais dão nome a patrimônios públicos do estado, incluindo três escolas da rede: o Centro de Excelência de Educação em Tempo Integral Abdias Bezerra, em Ribeirópolis (DRE 3); o Colégio Estadual Professor Artur Fortes; e o Colégio Estadual Professor Acrísio Cruz, ambos na capital.

O Colégio Tobias Barreto tornou-se referência pelo sucesso de seus egressos, que se destacavam em aprovações para o ensino superior em importantes instituições da primeira metade do século XX. Em 1969, foi adquirido pelo Governo do Estado, durante a gestão do governador Lourival Batista. Segundo registros históricos, foi nesse ano que a escola foi vendida.

Em 1976, passou a funcionar como colégio público, pertencente à Rede Pública Estadual de Educação. A partir deste momento, passou a ofertar os então 1º e 2º graus. Em documento do Conselho Estadual de Educação, datado de 1976, consta o registro da autorização para sua integração à rede estadual. Segundo as escrituras, o colégio funcionou durante várias décadas formando e educando várias gerações de sergipanos.

Desde então, o Tobias Barreto deixou de ser um internato privado e passou a receber milhares de estudantes que tiveram parte de suas vidas construída na instituição. Atualmente, o Colégio Estadual Tobias Barreto atende 1.067 alunos, distribuídos entre os anos finais do ensino fundamental, o ensino médio e turmas de Formação Inicial e Continuada (FIC).

Início do cinquentenário

Em Aracaju, o Colégio Estadual Tobias Barreto comemorou, no último dia 1º de junho, seus 50 anos de integração à Rede Pública Estadual de Educação, marcados pela formação de gerações de sergipanos. A celebração foi realizada no Teatro Tobias Barreto, com homenagens e apresentações teatrais, reunindo alunos, professores, gestores e egressos da instituição.

Na ocasião, toda a comunidade escolar, composta por mais de mil alunos do ensino médio, compareceu ao teatro. Houve homenagens, exposições, apresentações teatrais e musicais, além de momentos de grande emoção. Os estudantes exibiram produções documentais elaboradas por eles próprios para registrar a história da instituição. Ex-alunos e ex-professores também participaram, compondo um encontro entre gerações que viveram — e ainda vivem — parte de suas histórias no Tobias Barreto.

A diretora do Colégio Estadual Tobias Barreto, Silvia Souza, destacou a emoção vivida durante a celebração. “Lá, nós vivemos um momento de muita emoção. Foi muito bonito, porque todos nós estávamos envolvidos com o que estava acontecendo ali. E todos nós tivemos uma parcela de contribuição para que aquele momento representasse o ápice da nossa comemoração”, comentou.

Ela também ressaltou uma coincidência especial: enquanto o Tobias Barreto celebra 50 anos na rede pública estadual, ela completa cinco anos à frente da escola. O evento enalteceu cinco décadas de uma história marcada por transformações na vida de quem passou pela instituição. Na plateia, as novas gerações simbolizavam a continuidade da trajetória do colégio, que já marcou tantas outras. Mas não são apenas esses 50 anos que definem o Colégio Estadual Tobias Barreto.

Memórias vivas em família

Ao longo de sua extensa trajetória, muitas gerações passaram pelo Colégio Estadual Tobias Barreto. Parte delas viveu a época do internato privado; outra, já sob administração pública. Cada uma em seu tempo, mas todas com um objetivo em comum: transformar suas vidas por meio da educação.

Entre tantos estudantes e professores que passaram pela escola, há uma história especial. Nas décadas de 1970 e 1980, pai e filho, respectivamente professor e aluno, viveram experiências marcantes na instituição. Eles são o ex-professor de História José Antônio Santos e o ex-aluno Francisco Freitas Santos. Ambos participaram da homenagem aos 50 anos da escola, realizada no Teatro Tobias Barreto.

O professor Antônio foi um dos primeiros docentes a lecionar na escola após sua estadualização. Houve naquele período uma fase de transição, entre 1976 e 1978, para adequação da instituição ao novo sistema, com a chegada de professores de outras unidades da rede. Ele integrava o antigo Colégio Costa e Silva, atual Centro de Excelência de Educação em Tempo Integral Prof. João Costa. No Tobias Barreto, lecionava História no turno noturno para o curso Científico, correspondente ao atual ensino médio. Além da disciplina, também ministrava aulas nos cursos técnicos de Administração e Contabilidade.

“Antes eu trabalhava no Colégio Costa e Silva. Aloísio era professor lá e foi assumir o Tobias Barreto. Ingressei por intermédio do professor Aloísio Ezequiel, que me convidou para acompanhar a equipe dele. Eu fui com muito prazer, porque sempre fui considerado um colega exemplar por todos eles. Para mim, mais do que professor, eu era um amigo dos estudantes. Eles se comportavam muito bem, me respeitavam. Foi a maior alegria fazer parte da equipe do Colégio Tobias Barreto”, comenta o ex-professor Antônio.

Ele permaneceu na instituição até o ano 2000, quando se aposentou. Hoje, aos 80 anos, é uma memória viva da história da escola. Seu filho, Francisco Freitas Santos, também guarda lembranças que se transformaram em verdadeiras relíquias familiares.

Francisco ingressou na escola em 1988, na então 7ª série C, correspondente ao atual 8º ano do ensino fundamental. Permaneceu na instituição até o ano seguinte, quando cursou a 8ª série A, equivalente ao atual 9º ano. Para ele, a vivência no colégio foi fundamental para sua formação. “Foi uma história maravilhosa, com professores muito bons. Lembro-me de alguns nomes. Tive experiências muito boas. Na época em que estudávamos Educação Moral e Cívica, também tínhamos OSPB, Organização Social e Política Brasileira. Foi uma escola muito marcante. Gostei demais de estudar na escola pública Tobias Barreto. Marcou bastante a minha vida”, relata.

Francisco relembra professores que marcaram sua trajetória no fim da década de 1980: Pedro Ribeiro, de Ciências; Djalma, de Português; Eliane e Israel, de Matemática; Júlio, de Natação; e Álvaro, de Educação Física, já falecido.

Como Francisco estudava pela manhã e Antônio lecionava à noite, pai e filho não dividiram o mesmo ambiente escolar. Enquanto o filho cursava o equivalente aos atuais anos finais do ensino fundamental, o pai ensinava no antigo segundo grau, hoje ensino médio. Ainda assim, compartilharam momentos marcantes no Tobias Barreto, que permanecerão para sempre em suas memórias.

Novos ares, novas gerações

As vivências do passado ajudam a construir o presente. Muitos anos depois da trajetória de Francisco e seu pai, a escola ampliou seu atendimento e hoje reúne estudantes de diferentes gerações. Um deles é Daniel Ciriaco, atualmente estudante de Direito, que cursou o ensino médio no Tobias Barreto entre 2020 e 2022.

“O Tobias foi uma experiência incrível, uma segunda casa para mim. Tive a oportunidade de conviver com grandes professores que me ajudaram muito na minha trajetória. Fui conselheiro, monitor e representei a escola em eventos. Aprendi não apenas os conteúdos, que foram essenciais para meu desempenho no vestibular, mas também a importância da educação e do estudo na nossa vida. Graças ao Tobias e à educação, consegui mudar a minha realidade”, afirma.

Ele também recorda com carinho das aulas, das amizades e das tradições vividas na escola. “Recordo-me, com enorme carinho, das aulas sobre Genética, das figuras de linguagem, dos jogos escolares, das resenhas da turma, do nosso tradicional São João e da saudade de dançar quadrilha. O Tobias acolhe todos, de todas as cores e classes”, diz.

Entre tantos estudantes que passaram pela instituição, seja nos tempos em que era privada, seja após sua integração à rede pública, uma certeza permanece: todos carregam consigo memórias marcadas pela escola e tiveram suas vidas transformadas por meio da educação.

Fotos: Unidade escolar

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