Documentário produzido por professores indígenas e cinco materiais didáticos voltados à cultura e aos saberes dos povos Xokó e Wassu Cocal foram apresentados durante a abertura da programação
Por Michele Becker
A educação, a memória e os saberes ancestrais deram o tom da abertura da programação dos 47 anos da Festa da Retomada da Terra Xokó, realizada na noite de terça-feira, 8, na Aldeia Indígena Xokó, em Porto da Folha. As atividades reuniram professores, estudantes, pesquisadores e integrantes da comunidade em uma programação que destacou o protagonismo indígena na construção de uma educação escolar diferenciada, específica e intercultural.
A programação teve início com atividades da Ação Saberes Indígenas na Escola (Asie), iniciativa desenvolvida em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), que desde 2024 vem promovendo formação continuada com professores indígenas e estimulando a produção de materiais pedagógicos construídos a partir dos conhecimentos e das experiências dos próprios povos. Um dos momentos de destaque foi a exibição do documentário ‘A Árvore dos Saberes Xokó’, produzido por professores indígenas do Colégio Estadual Indígena Dom José Brandão de Castro, sob direção da professora Rita Simone Barbosa. A produção recupera, por meio da memória e da história oral, a trajetória da educação escolar do povo Xokó e as pessoas que contribuíram para sua construção.
Na sequência, foram apresentados cinco materiais didáticos produzidos por cerca de 70 professores indígenas Xokó e Wassu Cocal, de Sergipe e Alagoas. As publicações abordam conhecimentos, cultura e elementos da identidade dos povos indígenas e representam uma resposta a uma demanda histórica das escolas indígenas: contar com materiais produzidos a partir de suas próprias realidades, saberes e perspectivas.
Para a professora Edneia Tavares Lopes, coordenadora institucional da UFS na Ação Saberes Indígenas na Escola, a produção dos materiais surgiu da constatação de que, apesar dos avanços conquistados pela educação escolar indígena nas últimas décadas, ainda existe uma distância entre as políticas educacionais e a realidade vivenciada no cotidiano das escolas. “Por mais que a gente já tenha avançado em relação à educação escolar indígena no nosso país, no chão da escola a gente ainda tem bastante carência. Não tinha material didático específico, pensando nas áreas e nos níveis escolares, produzido para esses indígenas dentro de uma política pública”, explica.
Segundo Edneia, a formação desenvolvida pela Asie busca justamente aproximar a universidade das demandas apresentadas pelos povos indígenas, colocando os próprios professores como protagonistas do processo de produção do conhecimento. A iniciativa começou atendendo aos povos Kariri-Xocó, Wassu Cocal e Xokó. A partir do segundo ano, o trabalho passou a concentrar-se nos povos Wassu Cocal e Xokó.
A formação envolve professores, formadores, supervisores, orientadores e a coordenação do núcleo, em um processo de gestão compartilhada que também vem contribuindo para a formação de uma equipe indígena de formadores no estado. “Quando eu falo nós, é realmente com os povos. A gente fez essa formação pensando tanto na questão conceitual e política quanto, sobretudo, nesse foco de produção de material didático”, destaca Edneia.
Inicialmente, os materiais serão destinados às escolas indígenas — uma escola Xokó e quatro escolas localizadas entre o povo Wassu Cocal. A intenção, segundo a coordenadora, é ampliar a impressão e a distribuição das publicações, inclusive para que possam ser utilizadas nas demais escolas da rede pública estadual de ensino, contribuindo para o cumprimento da legislação que estabelece o ensino da história e da cultura indígena na educação básica.
Saberes indígenas que chegam à sala de aula
Para a coordenadora indígena da Asie, professora Daniely Xokó, a produção dos materiais representa uma conquista para as escolas indígenas, que historicamente precisaram recorrer a livros produzidos para contextos escolares não indígenas. “Uma das necessidades que temos enquanto escola indígena é material específico, próprio do nosso povo, para que seja ensinado dentro da sala de aula. Até então, os materiais didáticos que temos são materiais vindos de fora, que não são escritos para escolas indígenas”, afirma.
Daniely destaca que a produção dos cinco materiais lançados durante a festa é apenas o início de um processo que deve continuar nas próximas edições da formação. Para ela, sistematizar e registrar os conhecimentos tradicionais é uma forma de garantir que esses saberes permaneçam vivos e sejam transmitidos às novas gerações. “A gente já tem essa missão enquanto educador de trazer os saberes do nosso povo, saberes ancestrais, os saberes indígenas para dentro da escola. Só que a gente precisa fazer a sistematização desses saberes. A gente precisa ter o registro desses saberes. E, através do material didático, a gente consegue isso”, ressalta.
A professora também relaciona a produção dos materiais à própria história de luta do povo Xokó. Para ela, a escola ocupa um lugar fundamental na preservação da identidade e da memória da comunidade. “Eu costumo dizer que a escola é o segundo espaço coletivo mais importante que o povo Xokó tem para a manutenção da nossa história, dos nossos saberes, da nossa identidade. A escola caminha em parceria com a comunidade. É uma conexão. Somos um só”, afirma.
Audiovisual para preservar a memória
A memória também esteve no centro do documentário ‘A Árvore dos Saberes Xokó’. A produção nasceu de um processo de formação na área de Linguagens, desenvolvido pela Asie a partir da perspectiva da educomunicação e do uso do audiovisual como ferramenta de preservação da memória e reconstrução da identidade.
Formadora do programa e diretora do documentário, Rita Simone Barbosa explica que o roteiro foi construído a partir das narrativas dos próprios moradores da comunidade, especialmente das pessoas mais velhas, que guardam lembranças fundamentais sobre a trajetória da educação escolar Xokó. “Os recursos audiovisuais são instrumentos interessantes nesse processo de recuperação ou retomada. Nosso trabalho foi muito assentado na oralidade do território e na relação dessa oralidade com a história da educação indígena do povo Xokó”, explica.
Entre as histórias recuperadas está a de tia Enoí, mulher que ministrava aulas sob um tamarindeiro que ainda existe na comunidade. A partir das memórias de seus antigos alunos, professores e moradores, o grupo construiu um roteiro que relaciona diferentes momentos da trajetória educacional do povo Xokó. “É uma história interessante, que vai desde o chão, as raízes profundas desse tamarindeiro, até o pássaro que voa mais alto, que ouve os torés e os cantos da escola indígena Xokó”, descreve Rita Simone.
O documentário também evidencia os caminhos percorridos pelos indígenas que passaram pela escola e chegaram às universidades, mostrando como a educação escolar indígena se relaciona com as conquistas contemporâneas da comunidade.
Educação como instrumento de respeito e reconhecimento
Para a coordenadora subnacional estadual de Sergipe e técnica da Secretaria de Estado da Educação (Seed), Andreza de Araújo Santos, os novos materiais representam um avanço para a educação escolar indígena e também podem contribuir para ampliar o conhecimento sobre a cultura dos povos originários em toda a rede estadual. “Até o momento, nós não tínhamos materiais didáticos específicos da cultura e da história do povo Xokó. É um material riquíssimo, com conteúdo específico da cultura desse povo, e isso é importantíssimo não só para a escola indígena, mas para todas as escolas do estado”, afirma.
A programação dos 47 anos da Festa da Retomada da Terra Xokó seguiu reunindo comunidade, estudantes e visitantes em torno de uma história marcada pela resistência, pela afirmação da identidade e pela luta pelo território. Nesse percurso, a escola ocupa lugar estratégico: é espaço de aprendizagem, preservação da memória, fortalecimento da cultura e transmissão dos saberes entre gerações. A noite de abertura foi encerrada com o ritual dos Guerreiros do Fogo, realizado pelo Grupo Pintados de Itamarina, integrando a celebração à dimensão cultural e espiritual que marca a Festa da Retomada e reafirma a força da identidade do povo Xokó.
Fotos: Michele Becker









