Estudantes e professores de diferentes municípios de Sergipe participaram das celebrações dos 47 anos da retomada do território indígena, em uma experiência pedagógica que aproximou a comunidade escolar da cultura e da ancestralidade Xokó
Por Michele Becker
Mais do que uma celebração, a Festa da Retomada da Terra Xokó representa a memória de uma trajetória marcada por resistência, luta pelo território e reafirmação da identidade indígena em Sergipe. No dia 9 de setembro, estudantes e professores da rede pública estadual de ensino estiveram na Aldeia Indígena Xokó, localizada na Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, no Alto Sertão sergipano, para participar dos 47 anos da retomada e transformar a vivência do território em uma experiência de aprendizagem.
A presença das escolas na festividade integra propostas pedagógicas desenvolvidas ao longo do ano letivo e amplia, para além da sala de aula, o contato dos estudantes com a história e a cultura dos povos originários. Ao conhecerem a comunidade, a escola indígena, os grafismos, o artesanato, os costumes e as manifestações culturais Xokó, os alunos também são convidados a refletir sobre território, identidade, direitos, respeito à diversidade e enfrentamento aos preconceitos.
A história recente do povo Xokó é atravessada por um processo de perda territorial e de luta pela retomada de suas terras e pela preservação de sua cultura e de suas crenças. A retomada, celebrada anualmente pela comunidade, tornou-se também um momento de afirmação da identidade indígena e de fortalecimento da memória coletiva. Para as escolas que participam da festividade, estar no território significa aproximar os conteúdos trabalhados em sala de aula da realidade de um povo cuja história faz parte da formação social e cultural de Sergipe.
Uma aula dentro do território indígena
O Centro de Excelência Dom Juvêncio de Britto, de Canindé de São Francisco, participou da Festa da Retomada da Terra Xokó com um grupo de 80 estudantes do Ensino Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), acompanhado por cinco professores. A visita foi planejada dentro de um projeto sobre os povos originários e preparada previamente para que os estudantes compreendessem que a ida à aldeia não seria apenas um passeio, mas uma oportunidade de aprendizagem.
Professora de Biologia e descendente do povo Xokó, Veranúbia Avelino destacou a importância de aproximar os estudantes não indígenas da história de um povo que, apesar de estar geograficamente próximo, ainda é pouco conhecido. “Geralmente, nos livros didáticos, a gente se remete a povos originários, mas não tão perto da gente, tão nosso. É de grande importância conhecer de onde a gente veio, como foi a luta e, principalmente, a do povo Xokó”, afirmou.
Segundo a professora, a preparação dos alunos também foi necessária para desconstruir imagens estereotipadas sobre os povos indígenas. A atividade, explica, busca promover uma compreensão baseada no respeito à cultura, às crenças, aos costumes e ao território indígena, entendido pela comunidade como um espaço sagrado. “Então, assim, a escola trabalhando nesse projeto está abrindo um leque de conhecimento e acho que é uma reparação histórica, principalmente uma reparação histórica que se está fazendo na educação em relação aos povos originários, os nossos povos originários aqui de Sergipe”, ressaltou.
Para os estudantes, a experiência de estar na aldeia também permitiu transformar conceitos aprendidos em sala de aula em conhecimento vivido. A estudante Ana Cecília, do 1º ano do ensino médio, visitou a aldeia pela primeira vez e destacou o acolhimento recebido pela comunidade. “É sempre bom a gente vir conhecer novas culturas e valorizar também a originalidade de todos os povos”, afirmou.
A aluna também conheceu a escola indígena e chamou atenção para os materiais utilizados no espaço para apresentar aspectos da cultura e da história Xokó. A experiência dialogou com os conteúdos trabalhados na disciplina de Direito dos Povos Originários, que, segundo ela, reforça a importância de respeitar e valorizar as culturas indígenas.
Também estudante do 1º ano, Ananda Rodrigues Xavier considerou a visita uma oportunidade de conhecer de perto uma realidade que, muitas vezes, chega aos alunos apenas por meio dos conteúdos escolares. “Uma coisa é a gente ouvir, outra coisa é a gente ver pessoalmente, na prática”, afirmou. Para ela, a vivência no território foi importante para compreender melhor a história e a cultura do povo Xokó.
Já Rodrigo da Silva Aragão, estudante do 2º ano da EJA, também esteve pela primeira vez na aldeia e descreveu a experiência como “gratificante”. Ao conhecer a escola indígena, os costumes, os grafismos e o artesanato, ele afirmou ter percebido de perto uma cultura diferente daquela com a qual estava acostumado.
Conhecimento para romper estereótipos
De Capela, o Centro de Excelência Maria Berenice Barreto Alves levou estudantes e professores para participar da festividade. A atividade faz parte de um trabalho pedagógico desenvolvido ao longo do ano com base na Lei nº 11.645, que orienta o ensino da história e da cultura indígena e afro-brasileira na educação básica.
A professora de Geografia Vivianne de Jesus explicou que a preparação começa muito antes da visita à aldeia. Os alunos estudam a temática, dialogam com representantes indígenas e desenvolvem atividades que culminam com a experiência no território Xokó. O objetivo, segundo a professora, é romper estereótipos ainda presentes na sociedade brasileira e possibilitar que os alunos compreendam a relação dos povos indígenas com o território e com os bens ambientais.
“Meu objetivo é quebrar os estereótipos que ainda persistem em relação aos povos indígenas. E aí eu trago a questão ambiental, principalmente a relação do Rio São Francisco, para eles visualizarem o que é essa vivência da comunidade indígena com o seu local e com os bens ambientais que tem nela”, explicou.
A professora também destaca que o processo de aprendizagem continua depois da visita. Ao retornar à escola, os estudantes participam de uma nova atividade de culminância para refletir sobre o que sentiram, aprenderam e vivenciaram. O resultado desse trabalho, conta Vivianne, já aparece no cotidiano escolar. Segundo ela, alunos que participam das atividades passam a questionar e corrigir colegas quando identificam o uso de termos pejorativos ou a reprodução de estereótipos relacionados aos povos indígenas. “Eu vejo que eles mesmos, os alunos, acabam corrigindo outros colegas e outros membros da comunidade escolar quando usam algum termo pejorativo, algum estereótipo em relação aos povos indígenas”, relatou.
Para a educadora, esse processo representa uma construção gradual de conhecimento e respeito. “Eu vejo sim os frutos do trabalho que eu venho fazendo já há 10 anos e eu fico bem feliz”, afirmou. Viviane comenta, inclusive, que já encontrou ex-alunos trazendo seus atuais alunos para a festa. “Percebi que havia plantado uma sementinha e que ela havia germinado quando encontrei uma ex-aluna trazendo seus alunos para a festa. Nesse dia, entendi que minha missão estava sendo cumprida”.
Entre os estudantes, a percepção também foi de descoberta. Alice Gabrielly Santos, do 8º ano, participou da visita e destacou a possibilidade de aprender e, ao mesmo tempo, contribuir para combater manifestações preconceituosas. “É uma experiência incrível. Eu estou muito feliz de estar participando dessa festividade porque a gente aprende mais na prática e a gente pode corrigir as pessoas que estão usando termos ofensivos para os povos indígenas”, disse.
A estudante também demonstrou expectativa para acompanhar uma das manifestações culturais da festividade, o Toré, que conhecia apenas pela internet. Para levar de volta à escola, ela resumiu a experiência em duas palavras: “muita alegria e muita aprendizagem”.
Educação para além da sala de aula
A participação das escolas da rede pública estadual na Festa da Retomada da Terra Xokó amplia o sentido da aprendizagem ao colocar os estudantes em contato direto com uma comunidade indígena e com um território cuja história é marcada pela resistência e pela reafirmação cultural.
Para a coordenadora subnacional estadual de Sergipe e técnica da Secretaria de Estado da Educação (Seed), Andreza de Araújo Santos, essa aproximação é fundamental para ampliar o conhecimento e combater preconceitos ainda existentes em relação aos povos indígenas. “É superimportante as escolas conhecerem de perto a cultura, para sensibilizar e minimizar o preconceito que existe com a cultura indígena no país. É muito importante que esses estudantes e professores não indígenas não apenas conheçam a cultura na teoria, mas vivenciem, na prática, essa cultura viva, que é uma conexão com a ancestralidade”, destacou.
Ao levar estudantes da rede pública estadual para vivenciar a Festa da Retomada, a escola amplia os espaços de aprendizagem e contribui para que a história e a cultura dos povos originários sejam compreendidas não apenas como conteúdo curricular, mas como parte viva da identidade, da memória e da diversidade cultural de Sergipe.
Fotos; Michele Becker































