Por Lucas Silva
Fonte: ASCOM / SEED
Quarta matéria da série "Formando Atletas", em alusão aos XXXIV Jogos da Primavera que iniciam nesta sexta-feira, 28, e prosseguem até o dia 14 de agosto, em Sergipe, o professor Ferreirinha, como é conhecido Antônio Ferreira de Melo Júnior, há 13 anos atuando como integrante efetivo do magistério tem sido responsável, ao longo desse tempo, pela revelação de novos e promissores talentos no paratletismo sergipano por meio do esporte escolar
Por Lucas Silva
Jadson Alves dos Santos, deficiente intelectual, 3º lugar geral no Circuito Loterias Caixa de Atletismo – Fase Nacional 2017; Marcela Lima, cadeirante, ouro nos 100m nas Paralimpíadas Escolares 2016; Tayná Freitas, deficiente física, ouro no arremesso de dardo também nas Paralimpíadas Escolares 2016. Além do bom desempenho em competições de alto nível e da condição especial, esses paratletas têm algo mais em comum: o treinador Antônio Ferreira de Melo Junior, professor da Rede Pública Estadual de Ensino.
"A minha identidade hoje é ‘o professor Ferreirinha, que trabalha com paratletismo´. Sem o paratletismo eu não consigo me ver como pessoa. Sinto-me realizado em trabalhar com os alunos atletas da rede pública de ensino e, hoje estou seguro disso, esta realização profissional eu não encontraria em nenhuma outra profissão", afirma o professor Antônio Ferreira (Ferreirinha), treinador de paratletismo do Centro de Esportes da Secretaria de Estado da Educação de Sergipe (Seed).
Aos 40 anos, o professor Ferreirinha, ou ‘professor Junior´ como também é chamado por seus alunos, ingressou na carreira do magistério da rede pública estadual de ensino no mesmo dia em que colou grau na Universidade Federal de Sergipe, na licenciatura em Educação Física, 14 de abril de 2004. "Já tinha sido aprovado no concurso público e convocado para tomar posse. Precisei aguardar apenas a colação para assumir o cargo. A partir daí comecei a aprender mesmo a dar aula", confessa.
Conforme afirma, os seus primeiros anos de magistério não foram fáceis. Natural e residente em Aracaju, sua primeira lotação foi no Colégio Estadual Maria das Graças Menezes Moura, no município de Itabi, circunscrito à Diretoria Regional de Educação 7 (DRE07). Morou em uma pensão durante os primeiros meses e depois em uma casa compartilhada com outros professores da rede estadual que também trabalhavam na região, voltando para a capital nos finais de semana.
Aprovado em outro concurso para o magistério, desta vez na rede pública municipal de Itaporanga D´Ajuda, divide seu tempo entre essas duas cidades, tendo que lecionar diariamente nestes dois municípios. Nesse período, relembra Ferreirinha, o seu trabalho consistia principalmente nas aulas teóricas de Educação Física, ainda com pouco destaque para o desenvolvimento prático de modalidades esportivas.
"O Departamento de Educação Física da Seed disponibiliza aos professores desta disciplina a opção de desenvolver projetos de área e projetos desportivos de base como forma de complementação da carga horária do profissional. E aí comecei com o esporte, inicialmente com turmas de futebol de salão masculino e feminino. Passado o estágio probatório, em agosto de 2007 fui removido para o Colégio Estadual Francisco Portugal, em Aracaju, e já em 2008, nesta mesma unidade de ensino, comecei com a primeira turma de atletismo, trabalhando com alunos portadores de deficiência intelectual leve e média", afirma o professor Junior.
Centro de Esportes
Embora atualmente esteja lotado no Colégio Estadual John Kennedy, o professor Ferreirinha se reporta ao Departamento de Educação Física da Secretaria de Estado da Educação, por meio do qual desenvolve o Projeto Paratletismo: deficiência física, visual e intelectual, nos espaços que a modalidade dispõe para aulas e treinos – o Parque Augusto Franco (Sementeira), em Aracaju, e a Pista de Atletismo da UFS, em são Cristóvão.
"O objetivo do nosso trabalho é preparar os alunos da rede pública estadual para competições como os Jogos da Primavera e os Jogos Paralímpicos Escolares, competição esta organizada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). É mais que um trabalho de inclusão. Se o projeto fosse só para inclusão, teríamos objetivos diferentes. Analisamos características e aptidões físicas para o esporte, ou seja, hoje o aluno deve possuir requisitos mínimos para participar", explica.
De acordo com o professor Antônio Ferreira, devido as ações e ao empenho do Def/Seed, a mobilidade, um dos maiores obstáculos enfrentados pelos alunos paratletas, tem sido bastante atenuada após a disponibilização de um veículo, há dois anos, por parte da secretária de Educação, para transportes dos jovens atletas de suas casas para os locais de treinamento.
"O interessante neste projeto é que a evasão é próxima de zero. Praticamente todos os alunos que aceitam participar permanecem no projeto, mesmo após ultrapassar os 17 anos, idade limite para participar de competições escolares, hoje objetivo central do projeto. Ao todo, devo ter tido algo como 50 alunos, dos quais 37 permanecem treinando desde que aderiram", destaca o professor Ferreira de Melo Junior.
Além da superação
Questionado sobre o significado do esporte para os seus alunos, todos com algum tipo de deficiência, Ferreirinha afirma que a prática esportiva representa mais que superação. "Eles não conseguem se ver sem o atletismo. Quanto mais comprometedora a deficiência maior é a entrega dos alunos. Para um atleta com deficiência visual, não é fácil encontrar em outros locais o que lhe é proporcionado com a prática do esporte. A diversão desse jovem é muito restrita e aqui nos treinos ele tem um treinamento não apenas para atingir uma determinada meta, mas é também um momento de lazer, diversão e socialização".
Destaques
Aos 16 anos e dono de uma coleção vasta de medalhas conquistadas em diversas competições esportivas ao longo dos últimos quatro anos, João Pedro dos Santos, aluno da Escola Estadual Rodrigues Dórea e atleta do Centro de Treinamento (CT/Seed – Polo Parque da Sementeira), é um dos destaques do paratletismo sergipano.Iniciado na modalidade pelo professor Junior, João Pedro foi convocado em fevereiro deste ano, pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), para compor a Seleção Brasileira de Atletismo.
Com esta convocação, ele se tornou o primeiro sergipano a integrar a Delegação Brasileira do CPB, e participou, entre os dias 22 e 25 de março, dos Jogos Parapan-Americanos de Jovens 2017, nos quais cerca de 1.000 atletas de mais de vinte países, com idade entre 13 e 21 anos, disputaram na cidade de São Paulo em 12 modalidades esportivas.
Expectativas e recompensa
Para este ano, Antônio Ferreira projeta alçar seus alunos a novos voos. Ele ressalta que a meta mais imediata é ficar entre os três primeiros colocados gerais nas Paralímpiadas Escolares 2017; em 2016, a Delegação Sergipana ficou na quinta colocação geral nesta competição. E isso não é apenas um mero sonho, acrescenta ele, "é algo próximo de ser realizado", frisa. "Assim afirmamos, tendo como base os resultados conquistados por nossos alunos atletas nas últimas competições que participaram, é uma expectativa criada tendo-se em vista o trabalho construído ao longo destes anos".
Na lida diária da profissão, o professor Junior confessa que aprende com seus alunos paratletas todo o tempo, "é um aprendizado constante". Ele ressalta que muitas pessoas veem os deficientes como porcelanas, que podem facilmente se quebrar e, por este motivo, não podem praticar esporte para competição.
"Mas os nossos treinamentos são para formar atletas de alto nível. O trabalho de superação deles no dia a dia é bem maior quando comparado ao trabalho de treinamento desenvolvido aqui. Tente imaginar a quantidade de desafios que eles enfrentam com mobilidade, acessibilidade, inclusão social. Passando por cima de tudo isso, quando chegam aqui eles tiram de letra. Todo esse esforço os capacita para serem cada vez mais autônomos e preparados para a vida", afirma, orgulhoso por ver seus atletas aquecendo antes de iniciar mais um dia de treinos, enquanto concedia esta entrevista a equipe de reportagem da Secretaria de Estado da Educação na Pista de Atletismo da UFS.
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