Pré-Universitário da Seed completa 25 anos e coleciona histórias de vidas transformadas pela educação

Curso é o maior preparatório gratuito para o Enem do Brasil e coleciona milhares de aprovações; histórias de jovens que passaram pelo Pré-Uni já foram destaque nacional

Por: Alice Mendonça (estagiária)

Chegar ao ensino superior é o sonho de muitos estudantes sergipanos. E ter acesso à educação pública de qualidade faz parte da realização deste sonho, que transforma vidas e constrói histórias. Por isso, há 25 anos, o Programa Pré-Universitário do Governo de Sergipe atua como a maior atividade de preparação gratuita para o Enem do Brasil, atendendo a milhares de estudantes de todo o estado. Somente em 2026, foram ofertadas mais de 4.200 vagas em 50 polos instalados em 30 municípios. Mais do que oportunizar o acesso à educação superior, o Pré-Universitário torna acessível a chance de melhorar as condições de vida de alunos e suas famílias, além da sociedade sergipana, que cresce juntamente com o programa.

Desde 2001, o Pré-Uni atua como uma política pública fundamental para a educação de Sergipe, promovendo assistência estudantil aos alunos que desejam ingressar no ensino superior. A secretária de Estado da Educação, Gilvânia Guimarães, que já foi coordenadora do programa duas vezes, comemora a data. “É uma felicidade muito grande para a educação pública sergipana ter uma política de estado tão acessível, que garante mais oportunidades à entrada no ensino superior”, destaca.

A diretora do Departamento de Apoio ao Sistema Educacional (Dase) da Secretaria de Estado da Educação (Seed), Eliane Passos, demonstra felicidade com este marco. “Gostaria, como diretora do Dase, de registrar o reconhecimento ao trabalho de todos que constroem, diariamente, esse programa. E, também, de renovar o nosso compromisso com o presente e com o futuro da juventude de Sergipe. São 25 anos de um programa que se efetivou como uma política de Estado e tem transformado significativamente vidas de estudantes, ajudando a escrever histórias”, diz a diretora.

A coordenadora do Programa, Gisele Pádua, lembra da magnitude de atendimento do programa. “A gente tem a obrigação, como Estado, de ofertar a educação de qualidade para o Sergipe, para o Nordeste. E com base nesse princípio, a gente constrói um programa de ano a ano, porque a gente trabalha com jovens. É um programa que cresce a cada ciclo em números de aprovados e em números de atendimento”, acrescenta.

Duas décadas e meia de história

A história do Pré-Universitário inicia-se nos anos 2000, época em que a forma de entrar na universidade era diferente da atual. Antes, não havia sistema de cotas, nem programas que auxiliassem os estudantes de baixa renda a cursarem o ensino superior, e a concorrência direta era a única forma de ingressar na faculdade. Ou seja, quem tinha condições de estudar com materiais de qualidade e com cursinho, tinha mais chances de ser aprovado do que aqueles que não dispunham desses recursos.

Foi assim que o Programa Pré-Universitário da Seed surgiu, como uma forma de igualar as condições para quem precisava. Esta política iniciou-se com a ideia de promover oportunidades para estudantes da Rede Pública Estadual de Ensino, e segue com este propósito até hoje. O programa passou pelas fases do vestibular seriado para a entrada na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e em outras do estado, até a adesão ao Enem como mecanismo de acesso ao ensino superior, em 2008.

Hoje, a ação segue priorizando a prova do Enem, além de outros vestibulares existentes, atendendo a alunos de Sergipe e, até mesmo, de outros estados (quando um polo fica em cidade que faz fronteira), a exemplo do polo Propriá, que ensina a alunos de Porto Real do Colégio (Alagoas), além do polo Simão Dias, que recebe estudantes de Paripiranga (Bahia).

Histórias transformadas

O Pré-Universitário, também chamado de Pré-Uni, Pré-Seed, ou até mesmo, carinhosamente, de “Pré” pelos alunos, foi responsável pela transformação de milhares de vidas em Sergipe. É nele que se concentram estudantes das mais variadas origens, idades e vivências. Mas, apesar desta imensa diversidade, todos, ao entrarem na sala de aula do ‘Pré’, têm um sonho em comum: chegar ao ensino superior.

Ter um curso preparatório gratuito como o ‘Pré’ torna a chance de fazer uma graduação mais acessível, incluindo a disputa dos cursos mais concorridos. Foi com essa oportunidade que muitos estudantes fizeram história. Esse foi o caso de João Costa, que passou para o curso de Medicina em 2011 na Universidade Federal de Sergipe (campus Lagarto). Filho de pais lavradores, o rapaz, hoje com 31 anos, ficou conhecido nacionalmente em 2018, após publicar uma carta aberta em suas redes sociais, comemorando sua conclusão dos estudos na faculdade e ressaltando a importância de um estudante de escola pública, como ele, chegar ao ensino superior. Na época, João morava no povoado Sítio Alto, de comunidade quilombola, em Simão Dias. Ele conta que passou por muitas dificuldades para conseguir estudar e ter o básico em sua família, composta pelos seus pais e por 11 irmãos.

O rapaz estudava no atual Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, e foi no 3° ano do Ensino Médio que ele entrou no Pré-Uni, por recomendação dos professores. Ele passou para Medicina com o vestibular seriado da UFS, com a ajuda do Pré-Universitário, conseguindo fazer uma boa prova no seu último ano de escola e cursar Medicina. “Ações como a do Pré-Uni são essenciais quando auxiliam vários jovens, como eu, a conseguirem a tão sonhada aprovação no vestibular. O apoio me ajudou bastante a aperfeiçoar as áreas que tinham maior peso para a nota do vestibular de Medicina, como física, biologia e redação”, conta o médico, que ainda se desdobrava em um estágio em seu município pela tarde, para comparecer às aulas do curso à noite.

Hoje, ele é médico formado pela UFS e pós-graduado em Medicina da Família e Comunidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), atuando, há sete anos, no Programa Mais Médicos. Ele compôs a primeira turma do seu curso no campus de Lagarto, e concluiu a graduação com 24 anos, em 2018. “Lembro-me de que, após a aprovação, a ficha demorou um pouco para cair, pois eu vim de uma comunidade muito carente, e minha família não tinha uma condição financeira mínima para manter as despesas básicas”, diz. “O pobre saiu da roça e o aluno de escola pública está se formando em medicina em uma Universidade Federal”, disse João, antes de se graduar em 2018 em sua carta publicada e viralizada na internet

Gêmeos de Lagarto

Outro caso emocionante aconteceu na cidade de Lagarto, Centro-Sul sergipano. Os irmãos gêmeos André e Andrei Santana conseguiram ingressar na UFS, ao mesmo tempo, no mesmo curso de Medicina e com notas parecidas. Os irmãos de 27 anos moravam no povoado Brejo, a 10 quilômetros da zona urbana da cidade. Eles foram aprovados no curso em 2020, época da Pandemia da covid-19, e hoje estão há poucos meses de encerrarem a graduação. Eles contam que, entraram no ‘Pré’ em razão da necessidade de preparação para o Enem, já que o local em que eles estudavam, o Instituto Federal de Sergipe (IFS), não é destinado a esse tipo de preparação.

Assim, no 3° ano do Ensino Médio, em 2018, cursaram o ‘Pré’ e passaram para o curso de Psicologia, no campus de São Cristóvão da UFS. Mas somente André foi estudar, pois a mãe deles havia recebido diagnóstico de câncer e, por isso, precisava de acompanhamento para os cuidados com a saúde. Assim, Andrei resolveu ficar em casa. Apesar disso, Andrei, que já estudava no Pré-Uni com o irmão na época em que passou para Psicologia, decidiu continuar os estudos, focando, desta vez, no curso de Medicina. “Eu fiquei estudando para o vestibular em casa e fazendo ‘Pré’ à noite. Daí, eu decidi fazer Medicina de fato, porque eu já tinha passado em um curso bom, mas ainda não sabia o que eu queria, e gostava de muitas áreas. Fiz a prova em 2018, não passei, e fui para 2019 tentar novamente”, detalha Andrei.

Enquanto Andrei tentava passar para Medicina em 2019, seu irmão, André, que estava na UFS, também tentava ser aprovado na mesma graduação. Por isso, ele compareceu às revisões finais do Pré-Uni antes da prova do Enem daquele ano. O resultado foi que os dois passaram em Medicina e iniciaram a faculdade em 2020. “Há coisas que são coincidências, mas às vezes vão além disso. Parece um destino divino, sabe? A gente sempre estudou junto e depois teve um período de afastamento. Hoje, estamos juntos de novo, e eu vejo isso como algo divino. Em você poder coincidir trajetórias. É uma grande satisfação”, afirma. Hoje, os dois estão prestes a se formar no curso, e fazem estágio no Hospital Universitário de Lagarto.

Um dos seus professores da época em que faziam o ‘Pré’, Otacilio Neto da Silva, lembra que a aprovação dos gêmeos reflete no sucesso do programa. “Você ver aquele casal de lavradores que tem, lá na casinha bem distante, dois filhos gêmeos, aprovados em Medicina, é uma emoção. O retorno e o carinho deles são muito grandes”, conta o professor de história, que há 20 anos ensina no Pré-Universitário.

O programa

O Pré-Universitário é uma ação do Governo do Estado, implementado por meio da Seed, que oferta, todos os anos, milhares de vagas para estudantes que fazem ou fizeram parte da Rede Pública Estadual de Educação, sejam eles concluintes do Ensino Médio (que estão na 3ª série), egressos da rede e participantes do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), com idade mínima de 18 anos.

Seu objetivo é ofertar um curso preparatório gratuito para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com a disponibilização de material didático pensado para a prova, como apostilas, cadernos, slides e simulados, produzidos por professores especializados na prova, e que também fazem parte da rede.

Fotos: Arquivo Seed

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