II Mostra de Iniciação Científica da Escola Estadual Áurea Melo promove empatia e inclusão ao abordar a neurodiversidade

Com o tema Ciensibilizando 2026 – Aquarela cerebral: tecendo redes de empatia na neurodiversidade, evento envolveu estudantes dos anos iniciais, famílias e comunidade escolar em atividades voltadas à valorização das diferenças

Por Michele Becker

A Escola Estadual Professora Áurea Melo, em Aracaju, realizou a II Mostra de Iniciação Científica com uma programação dedicada à neurodiversidade. Com o tema Ciensibilizando 2026 – Aquarela cerebral: tecendo redes de empatia na neurodiversidade, a iniciativa envolveu estudantes do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, além de pais e familiares, em experiências pedagógicas que combinaram conhecimento, ludicidade, sensibilização e inclusão. O evento contou com recursos do Programa de Transferência de Recursos Financeiros Diretamente às Escolas Públicas Estaduais – Profin Projetos.

A escolha da temática está relacionada à própria realidade vivenciada pela comunidade escolar. Desde a retomada das atividades da unidade, houve um crescimento significativo no número de matrículas de estudantes diagnosticados com algum tipo de neurodivergência. De acordo com o diretor Gustavo Aragão, em abril de 2022, a escola contava com cerca de 18 estudantes laudados. Atualmente, são 54 alunos com diagnóstico fechado, entre casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), altas habilidades, dislexia e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), além de outros estudantes que estão em processo de investigação.

Para o diretor, esse crescimento exigiu da escola um novo olhar sobre as práticas pedagógicas e sobre a organização do ambiente escolar. “A nossa realidade mudou muito. Em pouco tempo, tivemos um aumento expressivo no número de estudantes neurodivergentes, e isso nos levou a pensar em como a escola precisa estar preparada para acolher essas crianças. A proposta é não tentar adaptar o aluno à escola, mas adaptar o ambiente e as estratégias pedagógicas às necessidades e potencialidades de cada estudante”, explicou Gustavo Aragão.

Nesse contexto, a mostra científica buscou transformar a neurodiversidade em objeto de investigação e, ao mesmo tempo, em oportunidade de sensibilização da comunidade. As turmas desenvolveram atividades e exposições que abordaram diferentes formas de aprendizagem e percepção, utilizando recursos lúdicos, metodologias ativas e experiências sensoriais para estimular a reflexão sobre respeito, convivência e empatia.

A professora Clécia Passos, responsável por uma turma do 2º ano, destacou que o projeto permitiu evidenciar as potencialidades dos estudantes neurodivergentes. Em sua sala, o trabalho abordou os chamados “superpoderes”, com temas relacionados à dislexia, ao TDAH e às altas habilidades. “O Ciensibilizando trouxe a oportunidade de os estudantes neurodivergentes demonstrarem o quanto eles são fortes, o quanto podem e o quanto conseguem. Muitas vezes, existem dúvidas sobre suas capacidades, mas eles mostraram que conseguem aprender, participar e realizar atividades junto com os demais colegas. A ludicidade e a alegria fizeram com que eles demonstrassem muito entusiasmo e aprendizado”, afirmou a professora.

A turma conta com oito estudantes neurodivergentes, que participaram ativamente da preparação e da apresentação dos trabalhos. “Estou muito orgulhosa, porque todos compartilharam, participaram e estão felizes e entusiasmados com o que construíram”, acrescentou Clécia Passos.

O trabalho pedagógico também conta com o apoio de profissionais que acompanham os estudantes no cotidiano escolar. Tatiana Najara, acompanhante da turma do 2º ano, explicou que sua atuação complementa o trabalho da professora, oferecendo suporte de acordo com as necessidades específicas de cada criança. “Nosso papel é acompanhar e auxiliar os estudantes nas atividades e no processo de aprendizagem, observando as necessidades de cada um. É um trabalho muito importante e gradativo, porque cada criança tem suas particularidades e precisa de um acompanhamento adequado”, ressaltou.

Para as famílias, a iniciativa representa também um espaço de reconhecimento e acolhimento. Rízia Jamilly dos Santos, mãe de um estudante com TEA e TDAH, destacou a importância da relação construída entre a escola, os profissionais e as famílias. “Quando matriculei meu filho, existia aquele receio de que o acolhimento não fosse como o que ele tem em casa. Mas ele foi muito bem recebido desde o início. Hoje, com o apoio da professora e da acompanhante em sala, me sinto mais tranquila. Meu filho é acolhido, e eu também me sinto acolhida pela escola”, afirmou.

Para Rízia, discutir a neurodiversidade durante uma mostra científica é uma forma de ampliar a compreensão sobre as diferenças e dar visibilidade às experiências vividas por muitas famílias. “Foi essencial. Muitas vezes, projetos e atividades não abordam a realidade dos estudantes neurodivergentes. Ver todas as salas se sensibilizando e trabalhando essa temática foi muito importante para nós”, destacou.

A percepção sobre a importância da inclusão também foi compartilhada pelos próprios estudantes. Aluna do 5º ano, Lorrane Victória de Jesus Santos explicou que sua turma trabalhou temas relacionados à inclusão e à convivência, considerando também a presença de colegas neurodivergentes. “Nós trabalhamos muito a inclusão e a proteção. Não excluímos as pessoas; incluímos nossos colegas nas brincadeiras, nas atividades e nos desafios. Acho importante falar sobre isso, porque muitas pessoas ainda não entendem os estudantes neurodivergentes e acabam tratando essas diferenças de forma preconceituosa”, observou.

Para a estudante, levar o tema para uma feira de ciências contribui para ampliar o conhecimento e fortalecer o respeito entre os colegas. “Eu gostei muito de trabalhar essa temática e espero que continue, porque é importante que as pessoas entendam e respeitem as diferenças”, concluiu.

Com a realização da II Mostra de Iniciação Científica, a Escola Estadual Professora Áurea Melo reafirma o compromisso com uma educação inclusiva, capaz de reconhecer as singularidades dos estudantes e transformar o conhecimento em instrumento de convivência, respeito e construção coletiva. Ao tecer redes de empatia em torno das diferentes formas de aprender, sentir e compreender o mundo, o Ciensibilizando 2026 aproxima ciência, escola e comunidade em favor de uma educação mais acolhedora e acessível a todos.

Fotos: Maria Odília

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